Napoleão Globalizado
Paulo Avelino
MIKABERIDZE, Alexander. Les guerres napoléoniennes: une histoire globale. 1a ed. Paris:
Flammarion, 2020. 1180p. Tradução de Thierry Piélat.
Um plebeu chamado Napoleão
Bonaparte se proclamara imperador da França e os países fracos tinham de
decidir entre a truculência inglesa, que dominava o mar, e a francesa, que
dominava a terra. O rei de um pequeno país do outro lado da Europa roía as unhas.
O príncipe regente Dom João viu o que acontecera com os dinamarqueses - o que os
ingleses eram capazes de fazer com quem os desagradava. Que não era muito
diferente do que os franceses fariam. Entre a Espada e a Cruz decidiu se se
lançar aos braços dos ingleses e ao mar. As tropas de Napoleão vieram castigá-lo
pela escolha, mas então ele já fugira para o Brasil e começara um processo que desembocaria
na Independência. E assim um bombardeio em Copenhague se tornou fato importante
em nossa História.
O livro do historiador georgiano
radicado na Luisiana Alexander Mikaberidze escapa do lugar comum sobre Napoleão,
que o trata como acontecimento meramente europeu. Livro recente (de 2020 na
edição original) e ainda não traduzido em português, eu o encontrei na loja do
Museu de Waterloo, na Bélgica, entre os inevitáveis imãs de geladeira e camisetas
de gola regata com a cara do Imperador e uma pilha de livros de detalhadíssimos
relatos da última batalha, Waterloo. Não me interessaram (comprei um imã de
geladeira, vá) mas eu queria mesmo, não sem algum egocentrismo, era saber de
Napoleão e do Brasil. Por extensão, Napoleão e o mundo.
O livro conduz o leitor desde uma
invasão nas ilhas Maurício no Oceano Índico até as negociações francesas com o
Xá da Pérsia e a primeira proclamação de independência do México pelo Padre
Hidalgo. Essa abrangência constitui o ponto forte e também o ponto fraco da
obra. São quase 150 páginas só de bibliografia e notas. E, talvez por ter muito
o que relatar, o autor quase não faz análise – pouco se detém nas relações
entre o cultural e o político ou sobre o espalhamento das ideias da Revolução
Francesa fora da Europa, impulsionadas de alguma forma por Napoleão. E batalhas
clássicas como Austerlitz, Borodino e Leipzig descritas apenas rapidamente. As
extensas narrações factuais ocupam a maior parte da obra e às vezes tornam a
leitura árida.
Vale como livro de consulta
talvez mais que como obra para ler de capa a capa. Tem o mérito de reunir
episódios disparatados em um volume só. Para entusiastas da época é valioso ter
na biblioteca. Para os demais, devjdo à amplitude do assunto, vale uma leitura focada
nas partes do mundo que interessam. Como foi ampla a controversa mas sempre
importante odisseia napoleônica.

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