domingo, 26 de julho de 2026

John e Paul, de Ian Leslie

 Gênios em foco

Paulo Avelino

LESLIE, Ian. John and Paul: uma história de amor feita de canções. 1ª Ed. Lisboa: Ed. Zigurate, 2025. 480p. Tradução de Sara Veiga.

Eram quatro garotos musicais de menos de vinte anos de humilde classe média naquela Liverpool industrial em 1960. George e Paul ainda moravam com os pais. Eles se encontravam no apartamento que dividiam John e... Stuart Sutcliffe. John estudara no colégio Quarry e assim o seu conjuntinho musical se chamava Quarrymen. Mas saíra da escola e procuravam outro nome. Na época estavam em voga os nomes do tipo Chefe and Os Demais, como Buddy Holly and The Crickets, de quem eram fãs. Chegaram a pensar em “Johnny and The Moondogs” mas a John desagradava a ideia de um líder. Cricket é gafanhoto. Stuart veio com a ideia de também terem nome de inseto. Todos eram admiradores da poesia da Geração Beat. Beetle é besouro. Eles seriam os besouros admiradores dos Beats... os Beatles.

Engana-se quem esperava como autor algum Beatlemaníaco capaz de exibir coisas como uma bituca de cigarro que Lennon teria fumado em 1963 como orgulho de seu acervo pessoal. O britânico Ian Leslie não exibe uma longa carreira de estudos de minúcias na já tão devassada trajetória dos Quatro de Liverpool. Trata-se um pesquisador do comportamento humano, com muitos livros na área e nenhum sobre música. O que explica o tema: trata da interação humana entre dois grandes compositores através da história das suas canções.

O que não impede de ser revelar a história geral do grupo. John (Lennon), Paul (McCartney) e George (Harrison) são hoje lendas do Pop, como o seria Stuart Sutcliffe se o destino e um aneurisma cerebral não o tivessem levado exatamente quando os amigos estavam a ponto de se tornar estrelas internacionais. Quanto a Ringo Starr, era de outro conjunto e só entraria depois.

Os capítulos do livro são nomes de músicas, algumas que metade do Mundo poderia cantarolar até hoje como Hey Jude, She Loves You e Yesterday. Aliás, para o público não-especializado, meu caso, um dos pontos mais saborosos são as anedotas de origem de alguns megassucessos. É interessante saber que Penny Lane não é nenhuma langorosa adolescente britânica mas uma rua de Liverpool, que termina numa rotatória – e era nesta que os estudantes John, Paul e George esperavam o ônibus para a escola. Ou a história de que Paul não achou que John tinha sido justo ao se separar de sua primeira esposa Cynthia. Foi até a casa dela e lhe deu um abraço e uma rosa – coisa que Cynthia valorizou muito. Dirigindo o carro na volta Paul cantarolou seguidamente duas notas, numa homenagem ao filho dela e John, um garoto de cinco anos, Hey Julian, que depois mudou para Hey Jude.

John and Paul não é uma biografia padrão da Banda. O autor analisa as canções para esclarecer a evolução do relacionamento entre os dois geniais compositores. Tudo o mais só entra na medida em que influi nesse relacionamento. George e Ringo, por exemplo, ficam na sombra, assim como as circunstâncias sociais que possibilitaram o imenso sucesso do  grupo. Mas trata-se de uma forma válida de introduzir o leitor não iniciado no Universo do Quarteto de Liverpool.

sexta-feira, 17 de julho de 2026

As guerras napoleônicas: uma história global, de Alexander Mikaberidze

 Napoleão Globalizado

Paulo Avelino

MIKABERIDZE, Alexander. Les guerres napoléoniennes: une histoire globale. 1a ed. Paris: Flammarion, 2020. 1180p. Tradução de Thierry Piélat.

 

Um dos episódios mais consequentes da História brasileira aconteceu quando em agosto de 1807 os ingleses invadiram a Dinamarca. Não era luta justa: de um lado o Império Britânico, desde a Índia até o Canadá, com uma marinha que esmagava a tudo e todos, e do outro lado o pequenino reino báltico. E nem muito cavalheiresca: os ingleses bombardearam a capital dinamarquesa visando não só às fortalezas mas à cidade. Em poucas semanas os dinamarqueses capitularam.

Um plebeu chamado Napoleão Bonaparte se proclamara imperador da França e os países fracos tinham de decidir entre a truculência inglesa, que dominava o mar, e a francesa, que dominava a terra. O rei de um pequeno país do outro lado da Europa roía as unhas. O príncipe regente Dom João viu o que acontecera com os dinamarqueses - o que os ingleses eram capazes de fazer com quem os desagradava. Que não era muito diferente do que os franceses fariam. Entre a Espada e a Cruz decidiu se se lançar aos braços dos ingleses e ao mar. As tropas de Napoleão vieram castigá-lo pela escolha, mas então ele já fugira para o Brasil e começara um processo que desembocaria na Independência. E assim um bombardeio em Copenhague se tornou fato importante em nossa História.

O livro do historiador georgiano radicado na Luisiana Alexander Mikaberidze escapa do lugar comum sobre Napoleão, que o trata como acontecimento meramente europeu. Livro recente (de 2020 na edição original) e ainda não traduzido em português, eu o encontrei na loja do Museu de Waterloo, na Bélgica, entre os inevitáveis imãs de geladeira e camisetas de gola regata com a cara do Imperador e uma pilha de livros de detalhadíssimos relatos da última batalha, Waterloo. Não me interessaram (comprei um imã de geladeira, vá) mas eu queria mesmo, não sem algum egocentrismo, era saber de Napoleão e do Brasil. Por extensão, Napoleão e o mundo.

O livro conduz o leitor desde uma invasão nas ilhas Maurício no Oceano Índico até as negociações francesas com o Xá da Pérsia e a primeira proclamação de independência do México pelo Padre Hidalgo. Essa abrangência constitui o ponto forte e também o ponto fraco da obra. São quase 150 páginas só de bibliografia e notas. E, talvez por ter muito o que relatar, o autor quase não faz análise – pouco se detém nas relações entre o cultural e o político ou sobre o espalhamento das ideias da Revolução Francesa fora da Europa, impulsionadas de alguma forma por Napoleão. E batalhas clássicas como Austerlitz, Borodino e Leipzig descritas apenas rapidamente. As extensas narrações factuais ocupam a maior parte da obra e às vezes tornam a leitura árida.

Vale como livro de consulta talvez mais que como obra para ler de capa a capa. Tem o mérito de reunir episódios disparatados em um volume só. Para entusiastas da época é valioso ter na biblioteca. Para os demais, devjdo à amplitude do assunto, vale uma leitura focada nas partes do mundo que interessam. Como foi ampla a controversa mas sempre importante odisseia napoleônica.