Gênios em foco
Paulo Avelino
Eram quatro garotos musicais de menos
de vinte anos de humilde classe média naquela Liverpool industrial em 1960. George
e Paul ainda moravam com os pais. Eles se encontravam no apartamento que dividiam
John e... Stuart Sutcliffe. John estudara no colégio Quarry e assim o seu
conjuntinho musical se chamava Quarrymen. Mas saíra da escola e procuravam
outro nome. Na época estavam em voga os nomes do tipo Chefe and Os Demais, como
Buddy Holly and The Crickets, de quem eram fãs. Chegaram a pensar em “Johnny
and The Moondogs” mas a John desagradava a ideia de um líder. Cricket é gafanhoto.
Stuart veio com a ideia de também terem nome de inseto. Todos eram admiradores
da poesia da Geração Beat. Beetle é besouro. Eles seriam os besouros
admiradores dos Beats... os Beatles.
Engana-se quem esperava como
autor algum Beatlemaníaco capaz de exibir coisas como uma bituca de cigarro que
Lennon teria fumado em 1963 como orgulho de seu acervo pessoal. O britânico Ian
Leslie não exibe uma longa carreira de estudos de minúcias na já tão devassada trajetória
dos Quatro de Liverpool. Trata-se um pesquisador do comportamento humano, com
muitos livros na área e nenhum sobre música. O que explica o tema: trata da
interação humana entre dois grandes compositores através da história das suas
canções.
O que não impede de ser revelar a
história geral do grupo. John (Lennon), Paul (McCartney) e George (Harrison) são
hoje lendas do Pop, como o seria Stuart Sutcliffe se o destino e um aneurisma cerebral
não o tivessem levado exatamente quando os amigos estavam a ponto de se tornar
estrelas internacionais. Quanto a Ringo Starr, era de outro conjunto e só entraria
depois.
Os capítulos do livro são nomes
de músicas, algumas que metade do Mundo poderia cantarolar até hoje como Hey
Jude, She Loves You e Yesterday. Aliás, para o público não-especializado, meu
caso, um dos pontos mais saborosos são as anedotas de origem de alguns megassucessos.
É interessante saber que Penny Lane não é nenhuma langorosa adolescente britânica
mas uma rua de Liverpool, que termina numa rotatória – e era nesta que os estudantes
John, Paul e George esperavam o ônibus para a escola. Ou a história de que Paul
não achou que John tinha sido justo ao se separar de sua primeira esposa
Cynthia. Foi até a casa dela e lhe deu um abraço e uma rosa – coisa que Cynthia
valorizou muito. Dirigindo o carro na volta Paul cantarolou seguidamente duas
notas, numa homenagem ao filho dela e John, um garoto de cinco anos, Hey Julian,
que depois mudou para Hey Jude.
John and Paul não é uma biografia
padrão da Banda. O autor analisa as canções para esclarecer a evolução do relacionamento
entre os dois geniais compositores. Tudo o mais só entra na medida em que influi
nesse relacionamento. George e Ringo, por exemplo, ficam na sombra, assim como
as circunstâncias sociais que possibilitaram o imenso sucesso do grupo. Mas trata-se de uma forma válida de
introduzir o leitor não iniciado no Universo do Quarteto de Liverpool.
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