sexta-feira, 17 de julho de 2026

As guerras napoleônicas: uma história global, de Alexander Mikaberidze

 Napoleão Globalizado

Paulo Avelino

MIKABERIDZE, Alexander. Les guerres napoléoniennes: une histoire globale. 1a ed. Paris: Flammarion, 2020. 1180p. Tradução de Thierry Piélat.

 

Um dos episódios mais consequentes da História brasileira aconteceu quando em agosto de 1807 os ingleses invadiram a Dinamarca. Não era luta justa: de um lado o Império Britânico, desde a Índia até o Canadá, com uma marinha que esmagava a tudo e todos, e do outro lado o pequenino reino báltico. E nem muito cavalheiresca: os ingleses bombardearam a capital dinamarquesa visando não só às fortalezas mas à cidade. Em poucas semanas os dinamarqueses capitularam.

Um plebeu chamado Napoleão Bonaparte se proclamara imperador da França e os países fracos tinham de decidir entre a truculência inglesa, que dominava o mar, e a francesa, que dominava a terra. O rei de um pequeno país do outro lado da Europa roía as unhas. O príncipe regente Dom João viu o que acontecera com os dinamarqueses - o que os ingleses eram capazes de fazer com quem os desagradava. Que não era muito diferente do que os franceses fariam. Entre a Espada e a Cruz decidiu se se lançar aos braços dos ingleses e ao mar. As tropas de Napoleão vieram castigá-lo pela escolha, mas então ele já fugira para o Brasil e começara um processo que desembocaria na Independência. E assim um bombardeio em Copenhague se tornou fato importante em nossa História.

O livro do historiador georgiano radicado na Luisiana Alexander Mikaberidze escapa do lugar comum sobre Napoleão, que o trata como acontecimento meramente europeu. Livro recente (de 2020 na edição original) e ainda não traduzido em português, eu o encontrei na loja do Museu de Waterloo, na Bélgica, entre os inevitáveis imãs de geladeira e camisetas de gola regata com a cara do Imperador e uma pilha de livros de detalhadíssimos relatos da última batalha, Waterloo. Não me interessaram (comprei um imã de geladeira, vá) mas eu queria mesmo, não sem algum egocentrismo, era saber de Napoleão e do Brasil. Por extensão, Napoleão e o mundo.

O livro conduz o leitor desde uma invasão nas ilhas Maurício no Oceano Índico até as negociações francesas com o Xá da Pérsia e a primeira proclamação de independência do México pelo Padre Hidalgo. Essa abrangência constitui o ponto forte e também o ponto fraco da obra. São quase 150 páginas só de bibliografia e notas. E, talvez por ter muito o que relatar, o autor quase não faz análise – pouco se detém nas relações entre o cultural e o político ou sobre o espalhamento das ideias da Revolução Francesa fora da Europa, impulsionadas de alguma forma por Napoleão. E batalhas clássicas como Austerlitz, Borodino e Leipzig descritas apenas rapidamente. As extensas narrações factuais ocupam a maior parte da obra e às vezes tornam a leitura árida.

Vale como livro de consulta talvez mais que como obra para ler de capa a capa. Tem o mérito de reunir episódios disparatados em um volume só. Para entusiastas da época é valioso ter na biblioteca. Para os demais, devjdo à amplitude do assunto, vale uma leitura focada nas partes do mundo que interessam. Como foi ampla a controversa mas sempre importante odisseia napoleônica.

terça-feira, 29 de abril de 2025

As Aventuras de Pinóquio, de Carlo Collodi

 Filosofias de Pinóquio

Paulo Avelino

COLLODI, Carlo. As Avent
uras de Pinóquio: A história de um boneco. Jandira, SP: Ciranda Cultural, 2022. 240p. Tradução de Beatriz Camacho.

SOBRE POLÍTICA SALARIAL:

- E o que ele faz da vida?

- É pobre.

- Ganha muito?

- Ganha o necessário para não ter um tostão no bolso. (p66)

SOBRE PEDAGOGIA E MEDICINA:

- Sim. Porque quero ir à escola e estudar com afinco.

 - Olhe para mim! – falou a raposa.  – Por essa paixão estúpida pelos estudos eu perdi uma perna.

- Olhe para mim – falou o gato. - Por essa paixão estúpida pelos estudos eu perdi a vista dos dois olhos. (p68)

SOBRE TOPONÍMIA:

- E para onde querem me levar?

- Para a Vila dos Tolos. (p69)

SOBRE MEDICINA LEGAL:

- Ao meu ver, o boneco está morto de vez, mas, se por alguma desgraça não estiver totalmente morto, então será um bom indício de que ainda está vivo!

- Sinto muito – disse a Coruja – em ter de contradizer o Corvo, meu ilustre amigo e colega, mas, para mim, o boneco ainda está vivo. Mas, se por alguma desgraça não estiver vivo, então será um sinal de que está realmente morto. (p93)

AINDA SOBRE TOPONÍMIA:

Depois de terem caminhando por quase meio dia, chegaram a uma cidade chamada Pega-Trouxa. (p105)

SOBRE DEFICIT INTELECTUAL:

- Afinal – gritou Pinóquio, raivosamente -, posso saber do quer você tanto ri, Papagaio mal-educado?

- Eu rio daqueles trouxas que acreditam em qualquer asneira e que se deixam enganar por quem é mais esperto do que eles.

- Está falando de mim, por acaso?

- Estou, pobre Pinóquio. (p110)

SOBRE DIREITO PENAL E O SENTIDO DA VIDA:

- Se os outros estão saindo da prisão, eu também quero sair – disse Pinóquio ao carcereiro.

- Você, não – respondeu o carcereiro -, pois é irrelevante...

- Peço desculpas – replicou Pinóquio -, mas eu também sou um ladrão.

- Neste caso, você tem razão. (p112)

SOBRE COMBATE À DESNUTRIÇÃO:

- Mas veja só! – respondeu o boneco, ofendido. – Para seu governo, eu nunca fui burro de carga. Eu nunca puxei carroça!

- Melhor para você! – respondeu o carvoeiro. – Então, garoto, se você está mesmo morrendo de fome, coma duas belas fatias de sua soberba e cuidado para não ter uma indigestão. (p140)

SOBRE ENSINO:

- Mas por que você está preocupado com a escola? Vamos para a escola amanhã. Com uma aula a mais ou a mesmo, continuaremos burros do mesmo jeito. (p150)


quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

A Grande História da Bélgica, de Patrick Weber

Um pequeno país europeu

Paulo Avelino

WEBER, Patrick. La Grande Histoire de la Belgique. Paris: Editions Perrin, 2016. 426p.



Poderia ser um best-seller: Maria aos 20 anos descobriu que seu pai morreu, deixando na mão da filha única um pedaço das terras mais ricas da Europa. Morte violenta e previsível: o pai de Maria era tão briguento que passou a ser conhecido como Carlos o Temerário. Maria herdou o título de Duquesa de Borgonha e um abacaxi dos diabos. Seu pai, o guerreiro, e seu avô Felipe, este uma raposa política, passaram suas vidas a defender suas terras dos vizinhos, o Imperador Germânico e o Rei da França. Maria não tinha muitas armas para se defender mas tinha um trunfo: ela mesma. Ofereceu-se em casamento a outro rico herdeiro, Maximiliano, o mais velho da poderosa família austríaca dos Habsburgo. Em 1477 casaram-se. Só que ao contrário do que se poderia imaginar Maria e Maximiliano realmente se gostavam e fizeram um casamento feliz. Seu neto seria Carlos V, o homem mais poderoso da Terra, e seu bisneto seria Felipe II, rei da Espanha e Portugal, que também reinaria sobre o Brasil.

Patrick Weber faz parte de uma geração que pouco tem em comum com o velho historiador livresco de antigamente. Multimídia, escreve livros de história, apresenta programas de TV, desenha histórias em quadrinhos, faz romances policiais e é além de tudo o cronista oficial da família real da Bélgica. A necessidade de síntese e de uma escrita que prenda o leitor se faz sentir pelas páginas desse pequeno volume que abrange a história do país europeu desde o paleolítico.

A Bélgica como país existe apenas desde 1830. Contudo o autor faz grande esforços para ver nessa história uma continuidade desde a Idade Média, com o surgimento do Condado de Flandres e do Ducado de Brabante, origem longínqua da divisão da Bélgica atual entre uma população que fala francês e uma que fala neerlandês. Trata-se de história em grande parte gêmea com o de seu vizinho do Norte, conhecido como Holanda. Aliás foi Felipe, avô de Maria, quem pela primeira vez dividiu seus domínios em Países do Alto, ao Sul, e Países Baixos, esses equivalentes às atuais Bélgica e Holanda. E o nome pegou.

Depois de sua independência a Bélgica cresceu como eixo industrial, com a mais densa rede ferroviária do continente, grandes depósitos de carvão e uma população de trabalhadores mal pagos, o que gerava grandes lucros. Lucros que impulsionaram a expansão para a África, para o Congo, que fizeram Colônia, no qual ocorreram atrocidades inimagináveis no processo de exploração da população local, especialmente no período de 1885 até 1908, sob o rei Leopoldo II. Outro ponto alto da obra é o reinado de Alberto I, o rei soldado e alpinista, que morreu despencado de uma montanha e visitou o Brasil.

O livro enfatiza a grande história política e não se aprofunda nos subterrâneos da sociedade, particularmente sobre as condições de vida dos que não eram reis ou ministros. Mas se trata de uma boa introdução à relativamente pouco conhecida história do pequeno e importante país europeu.


quinta-feira, 3 de agosto de 2023

História de Veneza, de John Julius Norwich

 

History of Venice, de John Julius Norwich

A Cidade Única

Paulo Avelino

NORWICH, John Julius. A History of Venice. Londres, Reino Unido: Penguin Books, 2012. 673p.

Talvez a mais ilustre licitação de obra pública de toda a História aconteceu em Veneza no século XVI. Precisava-se construir uma nova ponte. No mesmo lugar havia uma ponte de madeira, que fora destruída por duas vezes, por uma revolta e outra vez por um motivo mais trágico ainda, pelo peso da multidão que se reunira para uma festa. Finalmente a Signoria (governo da cidade) decidiu resolver o problema de uma vez por todas e fazer uma ponte de pedra. Lançou a licitação. Arquitetos enviaram seus projetos. Todos os concorrentes constam na Wikipedia e na História: Sansovino, Vignola, Scamozzi e Palladio, todos célebres e com opulentos currículos de palácios e igrejas. Mas havia mais um arquiteto concorrente: um certo Michelangelo, autor de uma certa Pietá e de uma certa Capela Sistina.

Assim é Veneza. Uma República independente que durou do ano 421 (segundo a lenda) até 1797 quando Napoleão enviou soldados para conquistá-la. República em uma Europa coalhada de monarquias e República estável em uma Itália infestada por irrequietos condottieri (senhores da guerra). E hoje uma cidade desse novo país, a Itália - só que os ônibus são aquáticos, assim como os táxis aquáticos para os apressados, os caminhões de entrega, de lixo e de bombeiros – todos aquáticos a deslizar nos canais entre prédios que não mudaram muito pelo menos nos últimos 200 anos. O historiador inglês John Julius Norwich era conhecido por sua atuação na televisão britânica. Escreveu nos anos 1970 este longo hino em prosa de amor à cidade. Veneza é única.

Essa originalidade leva a uma multiplicidade de facetas da Urbe, e entre todas o autor escolheu a que provavelmente tem menos interesse para o turista encantado que compra esse volume. Trata-se de uma história política e até certo ponto militar da Sereníssima República de Veneza. O leitor interessado nas maravilhas de Tintoretto e Bellini recebe páginas a falar de hoje obscuros Doges ou de guerras entre cidades italianas na Renascença tão confusas que é de se perguntar se seus protagonistas mesmo as entendiam. Boa parte do livro se passa longe da cidade pois descreve guerras em suas colônias, como Chipre e Creta.

Aspectos como a base econômica disso não são praticamente tratados. Particularmente certos aspectos pouco nobres do comércio veneziano, como o tráfico de escravos, principalmente da região dos Bálcãs. A cidade em si é pouco enfatizada. A cidade – sua expansão, arquiteturas,  lógica urbana, escolas de arte, estrangeiros ilustres que por lá passaram, além de costumes como o carnaval, que se expandiu até o Brasil.

Ainda assim se trata de uma boa introdução a Veneza. Quanto à licitação, nenhum dos ilustres concorrentes a venceu, nem mesmo Michelângelo. Quem ganhou o contrato foi um certo e corretamente nomeado Antônio da Ponte. A Ponte é a do Rialto, um dos cartões-postais da cidade, que multidões cruzam hoje sem que desabe – o que mostra que o desconhecido vencedor da licitação não era tão ruim assim, afinal.


domingo, 6 de fevereiro de 2022

Os Habsburgos, de Martyn Rady

 

Mil Anos de Poder

Paulo Avelino

RADY, Martyn. Os Habsburgos: ascensão e queda de uma potência global. Lisboa, Portugal: Círculo de Leitores, 2021. 532p. Tradução Diogo Marques.

 

Maria Teresa tinha um problema, aliás vários. Era Rainha da Hungria e da Boêmia, Arquiduquesa da Áustria e de quebra Imperatriz do Sacro Império Romano-Germânico, mas mesmo os grandes têm problemas. Um deles era o persistente, diligente e chato Rei da Prússia, Frederico II O Grande, que passou metade da vida a querer tomar as possessões da vizinha, por política ou guerra. O outro era como manter o seu sobrenome. Era uma Habsburgo, casou-se com um certo Francisco Estêvão, Duque de Lorena, alguém com muito menor pedigree e capital, político e financeiro. Ainda assim, por ser homem, ele é que normalmente deveria passar seu sobrenome para ela. A solução foi simples: ele compôs o sobrenome com o da esposa. Passou a se chamar Francisco Estêvão de Habsburgo-Lorena.

Décadas depois a bisneta de Maria Teresa casou-se com um príncipe de Portugal, que no momento morava em um certo Brasil. E foi anunciada como Maria Leopoldina de Habsburgo-Lorena, esposa de Pedro I.

A poderosa família austríaca dos Habsburgos tem a ver com o Brasil, assim como tem a ver com quase tudo na face do planeta, desde as Filipinas até os países hispanos nossos vizinhos, a Bélgica, Hungria, Itália, Holanda e muitos outros países. Este recente livro do professor inglês e conhecedor da cultura húngara Martyn Rady traça um panorama enciclopédico da trajetória da família, desde quando por volta do ano 1000 eram pequenos senhores de terra na região entre as atuais Suíça, Alemanha e Áustria, até 1918, quando o último deles perdeu o poder, defenestrado após a derrota na Primeira Guerra Mundial.

Há histórias ótimas, como a da origem do sobrenome da primeira Imperatriz do Brasil. Também a da vampiromania que assolou a Europa em meados do século XVIII, com o respeitável testemunho de Voltaire, que em afirmou que em Paris nada se falava tanto quanto de vampiros – como eram caçados, seus corações arrancados e seus corpos queimados. Ou com a relação de Mozart com a cultura musical da época do Imperador José II – que não era um parvo como o retratou o filme Amadeus, mas um reformador tanto ambicioso quanto implacável.

Ambição aliás nunca falou nos Habsburgos, nobres que nasciam com dinheiro e terras e sempre pareciam querer mais. Destacam-se algumas personalidades, como o inescrupuloso Rodolfo I, o pioneiro da família a ocupar um trono real. Ou Carlos V, a quem uma sucessão de casamentos espertos e oportunos falecimentos de parentes concedeu um Império que se estendia por todo o globo. E familiares por afinidade, como a belíssima Duquesa Elizabeth da Baviera, a Sissi dos filmes e atração-mor do turismo hoje em Viena. Fechando com o piedoso Carlos I, beatificado pela Igreja, cuja fé foi insuficiente para manter o Império.

O livro de Martyn Rady serve tanto como uma visão enciclopédica da história europeia dos últimos mil anos como uma leitura de diletantismo a alimentar boas conversas com anedotas históricas.

 

 


sábado, 25 de abril de 2020

Rondon - uma biografia, de Larry Rohter


O Marechal entre dois mundos

Paulo Avelino

ROHTER, Larry. Rondon – uma biografia. Rio de Janeiro: Objetiva, 2019. Tradução: Cássio de Arantes Leite. 565p.

Não sabiam bem onde estavam. Apenas que era o estado de Mato Grosso, ou talvez já Amazonas, e que estavam enfiados na selva havia 36 dias. Só tinham avançado 150 quilômetros naquele rio. Também não sabiam qual era o rio. À falta de nome chamaram-no Rio da Dúvida –nome adequado para um rio do qual se desconhecia quase tudo. Sabiam apenas que em suas frágeis canoas lutavam diariamente contra corredeiras, que já tinham comido metade das rações, que entre os membros da expedição já ocorrera um assassinato, e que um dos dois líderes delirava de malária e pedia para ser abandonado. A morte de qualquer ser humano é uma tragédia, mas a morte daquele homem seria além disso um incidente diplomático. Aquela expedição tinha nas suas mãos a vida de um ex-presidente dos Estados Unidos.

Larry Rohter morou por muito tempo no Brasil como correspondente de jornais dos EUA. Escolheu como tema uma figura mais conhecida de alguns brasileiros por ser o nome de um velho projeto do Regime Militar, que levava estudantes a trabalhar no interior, o Projeto Rondon, reeditado anos atrás. Também poucos lembram que o nome do estado de Rondônia é homenagem a ele.

Cândido Mariano da Silva Rondon adotou esse sobrenome como seu – o Rondon é de ascendência indígena. No seu nome já veio a contradição na qual se equilibrou toda a sua vida – entre a civilização dos brancos e a dos nativos, sempre a tentar integrar os mais fracos na sociedade dos mais fortes de forma a que sofressem o mínimo possível com isso.

Havia poucas oportunidades para um garoto mato-grossense nascido em 1865 e uma das poucas era o Exército. Aluno brilhante da Escola Militar, o jovem Cândido teve uma participação menor na Proclamação da República. Na Escola conheceu também a Religião Positivista, a qual seguiria por toda a vida. Sua carreira estava destinada a ser tranquila e estável quando poucos anos depois o chamaram para estabelecer linhas telegráficas cruzando florestas que o homem branco não havia cruzado. Voltou então às selvas. E descobriu que eram cheias de pessoas a quem os brancos conheciam pelo nome genérico de índios. Nascia então a sua luta de toda a vida.

O popularíssimo ex-Presidente estadunidense Theodore Roosevelt queria esquadrinhar a selva. O governo brasileiro pressentiu o perigo e chamou o já experimentado explorador Rondon para dividir a liderança do grupo – e para salvar o visitante, se necessário.

Verdadeiro pesadelo verde, oportunidades de salvamento não faltaram. Na expedição Roosevelt-Rondon sobraram fome, crime, cachoeiras, doenças. Depois de muito sacrifício os brasileiros, Rondon à frente, conseguiram fazer com que Roosevelt saísse da floresta vivo, uma proeza de não pequena dificuldade. O rio da Dúvida como homenagem se tornou rio Roosevelt.

O fim do livro trata do que ficou do Marechal Rondon. Muitas das selvas que ele esquadrinhou não mais existem. No entanto a luta pelos direitos dos povos indígenas, os quais ele tanto promoveu, continua atual e mantém a importância do seu legado.

terça-feira, 24 de dezembro de 2019

Uma Noite em Lisboa, de Erich Maria Remarque


Tempos de Medo

Paulo Avelino

REMARQUE, Erich Maria. Uma noite em Lisboa. 2ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1974. 242p. Tradução de Bélchior Cornélio da Silva.

Lisboa começo dos anos 40 e dois estranhos contemplavam navios no porto. Tempos de medo: com a Europa em guerra, Portugal é um dos poucos países neutros. E para lá confluíam pessoas de todo o continente, restos de humanidade que o crime da guerra criou: gente empobrecida, perseguidos por motivos políticos, temerosos de genocídios e até alguns espiões. Vinham psicologicamente estropiados de terror e de uma maratona de obstáculos em outros países: exigências de passaportes, vistos, atestados, certidões de permanência e de bom comportamento, uma pletora de controles que visavam a convencê-los de que o humano não era nada e que frequentemente convencia. Lisboa era ponta e trampolim: de lá muitos queriam cruzar o Atlântico, geralmente para os Estados Unidos. Mas faltavam passaportes, vistos e vagas nos navios. Poucos conseguiam.

Os estranhos contemplavam os navios que os salvariam, se lá pudessem entrar. O primeiro ouviu o outro chamá-lo. Pulou de medo, pois podia ser polícia secreta, e fica claro logo nas primeiras páginas o tom do romance. A perseguição fizera daquelas pessoas uns perfeitos paranoicos. Acostumadas a revistas e interrogatórios de guardas aduaneiros, policiais ferroviários, agentes à paisana, para eles todo desconhecido era um perigo em potencial. O segundo homem disse que se chamava Schwarz, que tinha duas passagens em um navio parta Nova Iorque, que queria dá-las para o primeiro, e que em troca apenas queria que o primeiro ouvisse a sua história.

Erich Maria Remarque escreveu o primeiro best seller da era moderna, Nada de Novo na Frente Ocidental (Im Westen nichts neues) e ainda é por essa obra conhecido. Não sem certa injustiça: o autor alemão, agora profissional dos livros e morando na Suíça, escreveu uma série de livros, geralmente com guerras como pano de fundo, mas tendo como tema real o horror humano dentro dos conflitos. Escreveu Uma Noite em Lisboa no começo dos anos 60.

Schwarz contou sua história ao outro durante aquela noite em Lisboa, em lugares que se podem reconhecer vagamente como cafés e prostíbulos na Alfama, sempre saindo de um para outro quando fechava ou quando desconfiavam ser observados por alguém que podia ser polícia à paisana. Não se chama na verdade Schwarz – esse é o nome no passaporte de outra pessoa, que ele utiliza. É perseguido político pelo Nazismo, sem que se saiba maiores detalhes sobre suas convicções. Helena, sua mulher, vinha de uma família de nazistas mas os detestava. Juntos empreendem fuga rocambolesca por vários países da Europa, enganando guardas, dormindo em lugares públicos, dando nomes falsos, e passando longo tempo em igrejas e museus (pois eles têm pouca vigilância). A narrativa quase sufoca, é nervosa de tantas peripécias. Simpatiza-se facilmente com o casal, sua fragilidade e ternura.

Trata-se de leitura infelizmente atual. Infelizmente pois há quem simpatize com nazismos e fascismos. Esse livro dá face humana às suas vítimas – nós.