A banalidade em família
Paulo Avelino
MOOREHEAD, Caroline. Edda
Mussolini: a mulher mais perigosa da Europa. São Paulo: Editora Planeta do
Brasil, 2025. 432p. Tradução de Claudio Carina.
Quase um conto de fadas: um casal rico e jovem em posto diplomático em uma exótica cidade do Oriente. Ele era um nobre. Ela era filha da mais alta autoridade de seu país. Promoveram um baile para a comunidade estrangeira, uma bolha de refinamento servida por uma maré de criados locais. Festa de arromba: às quatro da manhã o anfitrião ainda pedia para os farristas ficarem. Os jornais elogiaram o “casal muito unido” e a “anfitriã generosa e alegre”. Isso em público. Em particular muitos daqueles convidados consideravam o homem pomposo e inculto e a mulher só interessada em colunas de fofoca americanas. Ela não era tão tola quanto parecia. Escreveu que éramos “o casal perfeito: ele imbecil e eu trivial”. Isso aconteceu em Shanghai em 1932. Ele era Gian Galeazzo Ciano, ascendente diplomata. Ela era Edda, evidentemente Ciano, porém muito mais reconhecível pelo seu sobrenome de solteira, Edda Mussolini.
A veterana biógrafa britânica
Caroline Moorehead utiliza a filha de Benito Mussolini como ponto de olhar
privilegiado para descrever uma época da Itália e da Europa. Enfoca
relativamente pouco tempo da vida de Edda: essa viveu 85 anos e o livro mal
chega aos 36. Mas nessa janela de tempo a protagonista viveu o olho do furacão
social da ascensão da extrema-direita.
O livro segue a vida da menina
filha do arruaceiro metido a jornalista desde sua vida a almoçar capelettis
baratos feitos por sua mãe camponesa em apartamento mal-ajambrado em alguma rua
de Deus-dará em Milão até a proeminência do poder em palácio em Roma, com
direito a carro esporte próprio e casamento com representantes de trinta
países, cobertura de dezoito jornais, proteção de 1.500 guardas e um rosário de
presente do Papa.
A contrapartida disso eram os
comunistas, socialistas, sindicalistas e qualquer um que não se dobrasse a
Mussolini a tossir em prisões sem direito a defesa ou encolhidos nas cidades
com medo dos informantes da polícia.
O pai enviava a filha a sondar
outros países antes de tratativas por embaixadores. Nisso acompanhamos a
gradual trajetória de uma Itália aparentemente triunfante para um satélite da
Alemanha de Hitler, especialmente depois que começou a Segunda Guerra. O livro
deixa claro que Edda e Galeazzo eram fascistas e impenitentes, mas que apesar
disso perceberam antes do pai que a Guerra estava perdida e quanto mais cedo a
Itália saísse fora, melhor. Não saiu. Ciano foi fuzilado pelos seus pretensos
amigos fascistas e Mussolini foi pendurado como salame em uma praçola de Milão.
Edda fugiu a pé quase por milagre pela fronteira suíça.
Edda Mussolini como biografia é
às vezes confuso em algumas datas, e enfatiza muito mais a política que a
mulher Edda – sua vida pessoal só entra na medida em que afeta sua atuação como
peça central no Poder. Tem a vantagem de mostrar o fascismo por dentro: seus
líderes corruptos, violentos e banais. Uma advertência que deveria ter quedado
no passado mas que se tornou lamentavelmente atual.

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