terça-feira, 15 de setembro de 2026

Eu via Satanás cair como um relâmpago, de René Girard

A Cruz vence o Diabo mimético

Paulo Avelino

GIRARD, René. Eu via Satanás cair como um relâmpago. 13ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2025. 271p. Tradução de Martha Gambini.

“Lenta mas inexoravelmente o domínio da religião vai se enfraquecendo por todo o planeta”. Esse ensaio começa por seu poético porém pouco revelador título e continua por essa primeira frase. Um pouco enganadora, na verdade. Por ela o leitor imagina ter em mãos um estudo de sociologia das religiões. O livro se desvela outro.

Não pode ser acusada de incoerente a carreira acadêmica do antropólogo francês tornado estadunidense René Girard. Por décadas refinou o conceito por ele criado de teoria mimética, ou mais estritamente de violência mimética e sua superação. Colocou essa ideia em outro título também belo, “As Coisas Escondidas desde a Fundação do Mundo”, de 1978, onde já fazia um gancho de sua teoria com as religiões como um todo. No livro que comentamos, de 1999, segue a mesma linha mas a direcionar sua análise à Bíblia e, mais ainda, aos evangelhos.

Inicia com o Décimo mandamento, livremente falando, “Não cobiçarás as coisas ou bens alheios”. Isso, para Girard, representa um interdito básico para a Humanidade não recair em conflito mimético.

Mimese, essa é a palavra-chave. Os humanos imitam – e isso os faz humanos. O preço a pagar é que imitam também o conflito, nascido do desejo mimético pelo que pertence ao outro. Esse conflito, alimentado pelas próprias chamas, tende a se agravar e destruir a própria comunidade. Isso coloca uma questão básica para os agregados humanos: como evitar a violência interna. A solução é: escolher uma vítima, e contra ela jogar todo o ódio da comunidade. Depois do sacrifício faz-se uma harmonia, por precária que seja. O Sacrifício se torna Mito. O sacrifício do Bode Expiatório é atualizado posteriormente em cerimônias. O Mito se torna Rito.

Todas as culturas seriam assim, segundo Girard. O Velho Testamente traz uma novidade: a vítima (por exemplo, José do Egito ou Jó) são inocentes. Condenada é a multidão que a condena – multidão imersa nas trevas do conflito mimético. E a Ressurreição de Cristo supera o conflito mimético, não por um Mito, mas pela exposição de seu caráter de espiral destrutiva – em outra palavra, satânica. Cristo ressuscita e quebra a espiral de violência. Essa é a revolução dos Evangelhos. A Cruz vence Satanás.

Isso explicaria como a monoteísmo cristão se impôs com tanta facilidade a outras religiões mais antigas, de corte mítico. Para Girard os mitos pouco têm de belo – debaixo deles está a violência, entre si ou contra vítimas inocentes.

O livro termina por ser quase uma apologia do Cristianismo. Não faltam elogios às religiões cristãs mas a maioria é autorreferenciada – utilizam-se trechos da própria Bíblia para afirmar a verdade da Bíblia. O autor parte de um princípio laico, por assim dizer – a análise antropológica. E conclui pelo elogio ao Crucificado.

Trata-se de uma visão abrangente e sem dúvida original. Debatível, sem dúvida, mas uma fecunda vertente de análise sobre a Cultura Humana e mais ainda sobre o próprio Cristo – de quem parecia não haver nenhuma possibilidade de dizer algo novo.

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Lacerda, de Mário Magalhães

 Tempestade sem coração

Paulo Avelino

MAGALHÃES, Mário. Lacerda: Coração de Tempestade. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2026. V. 1: 1914-1955.515p.

Foi um dos poucos a ter a duvidosa honra de dar seu nome a um inseto chatinho, que ardia nos olhos. Também a uma onda de gripe. A dramaticidade veio de família: seu avô juiz enviuvou jovem e nunca mais sequer olhou para outra, e aborrecia os empregados da casa lendo à noite para eles os votos no Tribunal. O escorreito orador que era seu pai discursou no funeral de outro político que este não se rendera ao “Angu dos Poderosos e ao Bacalhau Oficial”, o que quer que isso significasse. Quanto a ele, seu irmão disse que era muito inteligente mas colocava a inteligência a serviço da burrice. E o resultado era uma Burrice Invencível.

Mais de uma década após o sucesso com Marighella – o Guerrilheiro que incendiou o Mundo, o jornalista Mário Magalhães caminha para o outro extremo do espectro político e entrega a biografia de Lacerda, jornalista, político, panfletário, involuntário batizador da gripe e do inseto ambos “lacerdinhas”, e mais que isso uma das figuras emblemáticas da frágil experiência de democracia entre 1945 e 1964, sempre a se aproximar ou se afastar do golpismo, conforme o momento.

Carlos Frederico Werneck de Lacerda veio de raízes políticas no velho vale do Paraíba escravocrata, a começar de seu avô Sebastião, ministro do STF, e de seu pai Maurício, um bombástico deputado. O livro acompanha a trajetória do irrequieto garoto que não chegou a se formar e sua entrada no mundo dos jornais, sempre verberando, sempre no ataque e, ao menos por algum tempo, sempre na esquerda. Seu primeiro discurso de destaque se deu quando indicou Luís Carlos Prestes para presidente honorário da Aliança Nacional Libertadora.

Um ponto importante é a transformação de um jovem comunista em farol do conservadorismo, um processo lento ao qual não faltou a intransigência dos próprios comunistas. Também se revela que, apesar de ter sido acima de tudo um jornalista, Lacerda não tinha o estilo de um. Seus artigos eram verbosos, mais discursos escritos que propriamente reportagens.

Sua vida a partir de certo ponto se marcou pelo confronto com os adversários políticos. Três dos mais conhecidos constam nesse volume: Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e Leonel Brizola. Para Lacerda eram mais que adversários, eram inimigos. O episódio que o livro mais enfoca é o suicídio de Getúlio, do qual Lacerda foi o estopim e teria sido o principal beneficiário se a saída dramática da vida não tivesse transformado o velho caudilho em lenda persistente até hoje. Este primeiro volume termina no golpe falhado de 1955, no qual Lacerda tentou impedir a posse do eleito JK.

Como ocorre em muitas biografias o livro não se estende muito na análise do contexto do personagem. Lacerda tinha uma sólida base eleitoral, especialmente na cidade do Rio. O livro quase não analisa quem o apoiava e quais as origens desse apoio, e nem quais forças Lacerda representava. De qualquer forma essa biografia tem sua relevância para hoje, por evidenciar as possibilidades e as fragilidades de nossa democracia.