quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Lacerda, de Mário Magalhães

 Tempestade sem coração

Paulo Avelino

MAGALHÃES, Mário. Lacerda: Coração de Tempestade. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2026. V. 1: 1914-1955.515p.

Foi um dos poucos a ter a duvidosa honra de dar seu nome a um inseto chatinho, que ardia nos olhos. Também a uma onda de gripe. A dramaticidade veio de família: seu avô juiz enviuvou jovem e nunca mais sequer olhou para outra, e aborrecia os empregados da casa lendo à noite para eles os votos no Tribunal. O escorreito orador que era seu pai discursou no funeral de outro político que este não se rendera ao “Angu dos Poderosos e ao Bacalhau Oficial”, o que quer que isso significasse. Quanto a ele, seu irmão disse que era muito inteligente mas colocava a inteligência a serviço da burrice. E o resultado era uma Burrice Invencível.

Mais de uma década após o sucesso com Marighella – o Guerrilheiro que incendiou o Mundo, o jornalista Mário Magalhães caminha para o outro extremo do espectro político e entrega a biografia de Lacerda, jornalista, político, panfletário, involuntário batizador da gripe e do inseto ambos “lacerdinhas”, e mais que isso uma das figuras emblemáticas da frágil experiência de democracia entre 1945 e 1964, sempre a se aproximar ou se afastar do golpismo, conforme o momento.

Carlos Frederico Werneck de Lacerda veio de raízes políticas no velho vale do Paraíba escravocrata, a começar de seu avô Sebastião, ministro do STF, e de seu pai Maurício, um bombástico deputado. O livro acompanha a trajetória do irrequieto garoto que não chegou a se formar e sua entrada no mundo dos jornais, sempre verberando, sempre no ataque e, ao menos por algum tempo, sempre na esquerda. Seu primeiro discurso de destaque se deu quando indicou Luís Carlos Prestes para presidente honorário da Aliança Nacional Libertadora.

Um ponto importante é a transformação de um jovem comunista em farol do conservadorismo, um processo lento ao qual não faltou a intransigência dos próprios comunistas. Também se revela que, apesar de ter sido acima de tudo um jornalista, Lacerda não tinha o estilo de um. Seus artigos eram verbosos, mais discursos escritos que propriamente reportagens.

Sua vida a partir de certo ponto se marcou pelo confronto com os adversários políticos. Três dos mais conhecidos constam nesse volume: Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e Leonel Brizola. Para Lacerda eram mais que adversários, eram inimigos. O episódio que o livro mais enfoca é o suicídio de Getúlio, do qual Lacerda foi o estopim e teria sido o principal beneficiário se a saída dramática da vida não tivesse transformado o velho caudilho em lenda persistente até hoje. Este primeiro volume termina no golpe falhado de 1955, no qual Lacerda tentou impedir a posse do eleito JK.

Como ocorre em muitas biografias o livro não se estende muito na análise do contexto do personagem. Lacerda tinha uma sólida base eleitoral, especialmente na cidade do Rio. O livro quase não analisa quem o apoiava e quais as origens desse apoio, e nem quais forças Lacerda representava. De qualquer forma essa biografia tem sua relevância para hoje, por evidenciar as possibilidades e as fragilidades de nossa democracia.