Tempestade sem coração
Paulo Avelino
MAGALHÃES, Mário. Lacerda:
Coração de Tempestade. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2026. V. 1:
1914-1955.515p.
Mais de uma década após o sucesso
com Marighella – o Guerrilheiro que incendiou o Mundo, o jornalista Mário
Magalhães caminha para o outro extremo do espectro político e entrega a
biografia de Lacerda, jornalista, político, panfletário, involuntário batizador
da gripe e do inseto ambos “lacerdinhas”, e mais que isso uma das figuras
emblemáticas da frágil experiência de democracia entre 1945 e 1964, sempre a se
aproximar ou se afastar do golpismo, conforme o momento.
Carlos Frederico Werneck de
Lacerda veio de raízes políticas no velho vale do Paraíba escravocrata, a
começar de seu avô Sebastião, ministro do STF, e de seu pai Maurício, um
bombástico deputado. O livro acompanha a trajetória do irrequieto garoto que
não chegou a se formar e sua entrada no mundo dos jornais, sempre verberando, sempre
no ataque e, ao menos por algum tempo, sempre na esquerda. Seu primeiro discurso
de destaque se deu quando indicou Luís Carlos Prestes para presidente honorário
da Aliança Nacional Libertadora.
Um ponto importante é a transformação
de um jovem comunista em farol do conservadorismo, um processo lento ao qual não
faltou a intransigência dos próprios comunistas. Também se revela que, apesar
de ter sido acima de tudo um jornalista, Lacerda não tinha o estilo de um. Seus
artigos eram verbosos, mais discursos escritos que propriamente reportagens.
Sua vida a partir de certo ponto
se marcou pelo confronto com os adversários políticos. Três dos mais conhecidos
constam nesse volume: Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e Leonel Brizola. Para
Lacerda eram mais que adversários, eram inimigos. O episódio que o livro mais
enfoca é o suicídio de Getúlio, do qual Lacerda foi o estopim e teria sido o principal
beneficiário se a saída dramática da vida não tivesse transformado o velho caudilho
em lenda persistente até hoje. Este primeiro volume termina no golpe falhado de
1955, no qual Lacerda tentou impedir a posse do eleito JK.
Como ocorre em muitas biografias o
livro não se estende muito na análise do contexto do personagem. Lacerda tinha
uma sólida base eleitoral, especialmente na cidade do Rio. O livro quase não
analisa quem o apoiava e quais as origens desse apoio, e nem quais forças
Lacerda representava. De qualquer forma essa biografia tem sua relevância para hoje,
por evidenciar as possibilidades e as fragilidades de nossa democracia.

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