Entre Best-seller e História
Paulo Avelino
SORKIN, Andrew Ross. 1929:
nos bastidores do maior crash de Wall Street e como estilhaçou a América. 1ª Ed.
Lisboa: Lua de Papel, 2026. 572p. Tradução de João Carlos Silva.
Pelas normas eles não podiam “correr, dizer palavrões ou andar sem casaco”. Mas foi só a sineta tocar o início dos trabalhos e os corretores da Bolsa de Nova Iorque fizeram exatamente isso. Empurravam seus colegas, todos a berrar ordens de venda de ações, cujos preços derretiam enquanto do lado de fora a multidão nervosa tentava entender o que acontecia. E o que acontecia era que estavam a perder suas economias e casas. O dia 29 de outubro passou para a História com o nome de “Black Tuesday”, ou terça-feira negra.
O jornalista financeiro Andrew Ross
Sorkin se celebrizou com um livro sobre a crise de 2008. Neste segundo trabalho
destrincha uma crise mais célebre: a queda da Bolsa de Valores, que desencadeou
uma depressão econômica por toda a década de Trinta.
Até pouco antes os mercados de
ações eram vistos como clubes de conhecedores, nada em que pessoas comuns
devessem se aventurar. E na mesma época se difundiu um mecanismo que permitia
que as pessoas comprassem as coisas sem dinheiro, baseadas apernas na confiança
do futuro: o crédito. E havia a crença de o Estado deveria interferir o mínimo possível.
Esses três fatores desencadearam um processo em que por anos pequenos
poupadores invadiram a Bolsa, a comprar ações com dinheiro emprestado, confiantes
de que em um ano o valor daquele título poderia dobrar – o que não era incomum.
Claro que, se gente comum lucrava
alguma coisa, banqueiros e especuladores ganhavam muito mais – forjavam altas
ou baixas para jogar e vender logo, para logo depois forjar outras, com a ações
cada vez mais caras. Até que tudo acabou na Terça-feira.
1929 fundamentalmente segue
personagens importantes. Alguns são familiares como o Presidente Franklin
Delano Roosevelt e o futuro Primeiro-Ministro britânico Winston Churchill. Mas os
principais personagens são banqueiros hoje desconhecidos, como Charles Edwin Mitchell,
o Presidente do National City Company e principal personagem do livro. Neste
livro não há pobres – é um mundo de iates particulares e mansões com quadros de
museu, embora a força da crise tenha caído fundamentalmente sobre os trabalhadores.
E por pessoalizar a história o livro utiliza recursos típicos de Best-Seller, como
o suspense e os conflitos interpessoais.
Essa é a força e fraqueza de
1929. De um lado se o lê como um romance mas do outro quase não existe a
análise que caracteriza o trabalho histórico. Particularmente, o leitor entende
que houve uma quebra da Bolsa de uma cidade e que houve uma baixa na atividade
econômica que engolfou o mundo todo, mas o livro pouco explica a relação entre
esses fatos. Fica-se a ler longas sessões dos julgamentos de alguns banqueiros,
que, se dão sabor à história, não acrescentam ao entendimento mais amplo do
problema.
As pessoas geralmente sabem que houve
uma Crise e que ela foi terrível, mas pouco mais. 1929 pode servir como convite
a ler outros livros que realizem uma análise mais elaborada.

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