terça-feira, 17 de setembro de 2019

Capitalismo e Colapso Ambiental, de Luiz Marques


Antídoto contra o perigo

Paulo Avelino

Marques, Luiz. Capitalismo e Colapso Ambiental. 3ª ed. revista. Campinas/SP: editora da Unicamp, 2018. 735p.

Quando o perigo vem, o animal foge. Mas quando aquele o surpreende, o bicho se paralisa na esperança de que o mal suma. Esse é o autoengano. Há também a denegação: saber que as coisas existem mas pensar que não são tão ruins assim.

Esse ensaio do professor Luiz Marques pode ser lido como um antídoto contra essas duas atitudes. Trata-se de aposta ousada: afinal é vasta e crescente a literatura sobre os problemas ambientais, particularmente sobre o aquecimento global. E seu autor não é o climatologista ou biólogo que se poderia esperar, mas um historiador de arte renascentista italiana.

Com tudo isso Luiz Marques explorou competentemente o assunto. Realizou pesquisa abrangente em assunto tão amplo e seu livro apresenta atração adicional para o leitor de 2019, que é a de ter sido recentemente atualizado. Livros sobre a crise ecológica caem rapidamente na obsolescência.

A primeira parte traça um panorama enciclopédico do estado do ambiente hoje e se denomina “Convergência das crises ambientais”, pois se trata exatamente disso. O problema não é só a emissão de gases de efeito-estufa na atmosfera, causando o chamado aquecimento global. A diminuição das florestas, o declínio dos recursos hídricos, o depósito de lixo nos oceanos, o colapso das biodiversidades aquática e terrestre, tudo compõe um mosaico que aponta para um Antropoceno e uma hipobiosfera, ou seja, um planeta moldado pela presença humana e com menor riqueza biológica.

Surpreende a recorrência de problemas que normalmente se supõem superados ou ao menos equacionados. O recente aumento do uso do carvão como combustível, quando se sabe que é um dos principais causadores da mudança climática. Também a revisão das previsões anteriormente otimistas quanto ao decréscimo da taxa de aumento demográfico, que faz com que o momento do zero crescimento seja empurrado cada vez mais para o futuro. E o aumento da taxa de destruição da floresta amazônica, já perceptível quando o livro foi escrito.

A segunda parte procura dar um sentido e uma saída a toda essa miríade de problemas convergentes. Para o autor, a crise atual parte de três ilusões concêntricas: primeiro, a ilusão de um capitalismo sustentável – qualquer tipo de crescimento não é mais possível; segundo, a noção de que quanto mais excedente, mais segurança, compreensível em uma espécie que passou privações tanto tempo, mas que se revelou falsa; e finalmente a ilusão antropocêntrica, de caráter filosófico, que crê ser o Humano o pináculo dos seres, com todos os outros inferiores a ele, e podendo se servir deles de acordo com as conveniências humanas.

Resta a saída. O autor dá apenas pistas. A lógica de acumulação não pode mais ser mantida – não se quisermos preservar o planeta o mais habitável possível. E não faz diferença se a lógica acumulativa se encontra em empresas privadas ou em economia socialista. Para tanto é necessária uma redistribuição de poder. Caminhos difíceis, e talvez inevitáveis.

segunda-feira, 18 de março de 2019

A Terra Inabitável, de David Wallace-Wells


Tragédias à porta

Paulo Avelino

WALLACE-WELLS, David. The uninhabitable Earth: life after warming. New York: Tim Duggan Books, 2019. 310p.

Primeiro o calor atmosférico, destruindo vidas em suas ondas; depois, a fome, com dezenas de milhões de migrantes a bater às portas de países ricos que não querem recebê-los; ao mesmo tempo as enchentes, com cidades costeiras a serem corroídas pela maré crescente; seguidos dos incêndios e deslizamentos e continua por aí. Pragas bíblicas em esteroides, as calamidades decorrentes do aquecimento global tornam quase ridícula a escala dos problemas do velho Egito do tempo dos profetas.

Nisso consiste a mensagem do livro de estreia do jornalista nova-iorquino David Wallace-Wells, editor de periódicos culturais. Não sendo especialista, consultou a bibliografia e entrevistou profissionais e desse trabalho decorreu esse livro que não se trata de um documento sobre a ciência do aquecimento global, mas de um apanhado das hipóteses mais prováveis do que ocorrerá com nosso mundo nas décadas a seguir.

E o quadro, em geral, não é belo. Após uma parte introdutória na qual sintetiza os problemas, segue-se uma série de capítulos, cada um dedicado ao que podemos rotular de uma desgraça. Os desastres assim chamados naturais não podem mais ser assim considerados, haverá falta de água potável, o ar já está sujo e se tornará mais ainda, ondas de novas doenças desconhecidas e de velhas doenças reforçadas atormentarão os humanos, a economia sofrerá com uma produção cada vez menor e como cereja do bolo ainda teremos guerras por questões de clima.

Um velho aforismo da arte de escrever ficção diz que não se pode escrever muitas desgraças seguidas, pois o leitor tende a se desengajar. Por isso os filmes de terror, quando exagerados, terminam por fazer parte da plateia rir de tanta tragédia. Este é um dos efeitos da leitura desse livro. O aquecimento global atinge os vitais interesses humanos de maneira tão destruidora e diversificada, segundo o autor, que o leitor quase que naturaliza as desgraças, e cada página virada o faz não só esperar, como (quase) querer mais.

Há, no entanto, o pior. Segundo o livro, a maior parte das pessoas pensa no aquecimento global como um evento lá pelo final do século, um futuro enevoado, a ser visto no máximo pelos bebezinhos de hoje quando chegarem uma sólida terceira idade. Não é o caso. Os efeitos, ou seja, as marés altas, os incêndios e as vagas de migrantes a causar instabilidade política estarão entre nós em questão de décadas, talvez uma década, e alguns de seus efeitos já se fazem sentir. Isso muda a perspectiva do futuro de nossas próprias vidas.

O autor não consegue explicar bem uma questão – a de por que, em meio a tanta miséria, ele mesmo teve uma filha recentemente. Titubeia, fala de luta, de estar fascinando pelos problemas que a filha vai ver,  na parte talvez menos convincente da obra.

Pode-se criticar a falta de interesse na América Latina e no Brasil em particular, excetuando algumas menções à floresta amazônica. No geral é livro assutador, o que, da perspectiva do jornalista, talvez seja um elogio.


segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Contra as Eleições, de David van Reybrouck


Eleições como inimigas da democracia

Paulo Avelino

REYBROUCK, David van. Contra as Eleições. Belo Horizonte: Âyine, 2017. Tradução de Flávio Quintale. 286p.

Há algo estranho com a democracia: todos parecem desejá-la, mas ninguém acredita mais nela – esta é literalmente a primeira frase do livro. Seguem-se estatísticas a demonstrar que em todo o mundo a democracia desfruta de alto prestígio. Trata-se de novidade histórica: no tempo da Segunda Guerra a democracia era desprezada, com poucas delas a funcionar no mundo.

Essa popularidade contrasta com a percentagem de pessoas que diz não dar importância a parlamentos, com o absenteísmo nos pleitos, e com os números cada vez menores de filiação a partidos políticos. Para essa contraditória porém real crise este pequeno ensaio pretende sugerir uma resposta.

O belga David van Reybrouck não é o circunspecto especialista que se poderia esperar. Já escreveu antropologia, história da África e peças de teatro. Nesse trabalho enfrenta a questão do sistema político de hoje.

E não o faz de maneira de maneira a apenas narrar, mas visa também a oferecer soluções. Depois de constatar a crise, analisa os diagnósticos correntes. A culpa seria dos políticos, da tecnocracia, da própria representação. Critica todas essas análises, e afirma que podem originar remédios inefetivos ou piores que a doença, caso da eleição de líderes demagógicos que se elegem com meia dúzia de frases feitas com apelo emocional, ou pelo assembleísmo que paralisa as decisões. A democracia, segundo ele, precisa conciliar duas necessidades: a eficiência e a legitimidade.

Propõe outro diagnóstico: a culpa seria da representação eleita, e a palavra-chave é “eleita”. Em afirmação ousada, diz que eleições fazem mal à democracia. É plenamente consciente do impacto do que fala, em um mundo em que democracia e eleições se tornaram praticamente sinônimos.

Para desfazer essa ideia, o autor esmiúça as origens gregas da ideia democrática e sua evolução em cidades-estados na Idade Média e Renascimento. Estabelece que, em tais exemplos históricos, a escolha de governantes e legisladores se fazia fundamentalmente por sorteio, sendo eleições um aspecto secundário no sistema político.

Em seguida investiga as origens do sistema eleitoral atual, nos séculos XVIII e XIX. Para talvez surpresa de muitos, afirma que as eleições foram estabelecidas não para fazer com que o próprio se governasse, mas para criar uma camada diferenciada, que governaria.

Para os males das eleições sugere um sistema de câmaras múltiplas, com  rigorosa divisão de poderes, cujos membros seriam escolhidos por sorteio, com voluntariado em alguns poucos casos. Os sorteados contariam com assessoria técnica no seu trabalho de elaborar as leis.

Pode-se concordar ou não com as ideias de van Reybrock, e especialmente com suas sugestões. Mas dificilmente se pode contestar a tempestividade de seu ensaio. A eleição de líderes de pensamento simplista, com muita retórica e poucas soluções concretas, além do apelo ao emocionalismo, tornam urgente a reforma do modelo democrático atual, sob pena de sua destruição.

E o que vier depois pode ser muito pior.

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

A Marcha da Insensatez, de Barbara Tuchman


O Espectro das políticas autodestrutivas

Paulo Avelino

TUCHMAN, Barbara. A Marcha da Insensatez: de Troia ao Vietnã. Rio de Janeiro: José Olympio editora, 1986. 1a edição estadunidense, 1984. Tradução de Carlos de Oliveira Gomes. 448p.

Soberanos, cliques governamentais e até sociedades inteiras comprometem dinheiro, território e vidas a seguir políticas contrárias a seus próprios interesses. Contrárias porque inviáveis ou porque a recompensa do sucesso será muito menor que os custos do esforço. Isso é a própria definição de Insensatez.

Tal é a conclusão deste que foi um dos últimos trabalhos da historiadora estadunidense Barbara Tuchman. Analisa politicas insensatas na prática, e para isso escolhe quatro situações históricas.
A primeira consiste na paradigmática: os troianos decidem levar o cavalo de madeira para dentro de suas muralhas, com o resultado já conhecido. Seus líderes não erraram por falta de aviso: muitas vozes aconselharam que se livrassem do falso presente. Por insensatez não o fizeram.

Esse modelo de comportamento se reproduziu nos Papas da Renascença, talvez a parte mais saborosa do livro. Seis Pontífices se sucederam: fazedores de guerras, envolvidos em assassinatos, pais de filhos bastardos (e assassinos), sedentos por dinheiro e cargos para sua família, perdulários. Não faltaram denúncias por uma igreja mais santa. Não foram escutadas. Veio Lutero. Uma Igreja dividida até hoje foi o resultado da insensatez.

O mesmo ocorreu quando as colônias inglesas na América do Norte demonstraram descontentamento com a política tributária da metrópole, no século XVIII. Alguns políticos ingleses advertiram que isso era um erro. O governo inglês insistiu, radicalizou, o descontentamento se tornou guerra e o resultado foi a independência das colônias nos Estados Unidos.

Quase metade do livro se refere à última situação analisada, a política estadunidense no Vietnã, o que é compreensível tendo em vista a época em que a obra foi escrita, no rescaldo da derrota dos EUA. A historiadora identifica o princípio no final da Segunda Guerra, quando após o falecimento de Roosevelt o governo modificou a política anterior, que era de favorecimento à independência do país. Informes já afirmavam que havia forte desejo de libertação no Vietnã, e que nem os antigos colonizadores franceses nem o novo poder dos EUA poderiam sobrepujar isso.

Não foram ouvidos. Os governos estadunidenses comprometeram cada vez mais dinheiro, armas e vidas. Inicialmente apoiaram o colonialismo francês na sua luta contra a guerrilha nacionalista, depois comunista. Após a derrota francesa, os EUA sustentaram a criação de um país cliente, o Vietnã do Sul. Corrupção e facciosismo tomaram este último. Os americanos entraram diretamente, primeiro com aviões, depois com tropas em terra, apesar de relatórios denunciando a futilidade de tudo. Finalmente tiveram de sair corridos de sua embaixada em 1975, horas antes de os tanques do Vietnã do Norte derrubarem seus portões.

A historiadora afirma que nem tudo foi insensatez no passado. Políticas bem planificadas e bem sucedidas foram implementadas. O espectro da insensatez no entanto permanece, como ameaça e advertência para as sociedades.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Divertindo-se até morrer, de Neil Postman

O Mundo não tão belo que a TV criou

Paulo Avelino

POSTMAN, Neil. Amusing ourselves to Death: public discourse in the age of show business. Estados Unidos: Penguin, 2005. 1a ed. 1985. Com nova introdução por Andrew Postman. 175p.

Uma música animadinha anuncia o começo. A dupla de apresentadores enche a tela. Belos, maquiados, paletó e terninho de executiva, eles anunciam as notícias do dia. E se seguem enchentes, gols da decisão do dia anterior, tranquilizadoras explicações de algum ministro. Raros assuntos duram mais que quarenta e cinco segundos. Depois de noticiar uma ameaça de seca, eles sorriem e dão boa noite. Corta para um comercial de margarina.

De tanto vermos cenas como esta, elas nos parecem naturais. Para o professor da Universidade de Nova Iorque Neil Postman, nada disso o é. Ele escreveu esse pequeno ensaio em 1984-1985, quando a grande ameaça era uma guerra nuclear entre Estados Unidos e União Soviética, e a pletora de computadores pessoais ligados à Internet estava longe de existir.

O autor parte da afirmação que o meio molda a mensagem: não se pode dizer qualquer coisa em qualquer meio de comunicação. Ele analisa a televisão enquanto epistemologia.

Para tanto ele faz um confronto entre dois meios de comunicação: a televisão e aquele que a precedeu, a palavra impressa. Cada um desses meios criou um modo de pensar e um modo de viver diferente.

A palavra impressa convida à exposição lógica, ao detalhamento, à não-contradição. Todos esses elementos podem falhar em um texto impresso, e tais falhas podem ser percebidas pelo leitor. Acima de tudo, a palavra impressa tem um conteúdo, que pode ser verdadeiro ou falso, relevante ou não. Pode parecer óbvio, mas o meio seguinte se caracteriza exatamente pelo conteúdo ser nele marginal ou irrelevante. A palavra impressa possibilitou gerações de pregadores, políticos e advogados com uma tendência para o discurso lógico e ordenado.

No século XX veio a TV. E a essência do discurso televisivo é o entretenimento. Uma dupla de apresentadores nos apresenta pedaços de discurso sobre fatos desconectados, resume-os em um rótulo “notícias do dia”, muitas delas tragédias, e se despede pedindo para assistirmos de novo amanhã. Vários desses assuntos dariam material para noites sem dormir. Mas a televisão transforma tudo em entretenimento.

Não é que o discurso impresso fosse sempre sério. Pelo contrário, o autor afirma que a imprensa produziu toneladas de bobagem. E não é que a TV não possa se dedicar a assuntos chamados sérios. Apenas é que, pelas próprias características da TV, ela só desenvolve esses assuntos como diversão.
O problema é querer usar a TV para esferas aos quais ela não se adequa, como a política, a religião e a educação. O autor afirma que o problema não são os programas de entretenimento: TV é para isso mesmo.


Portman no seu livro não conheceu a Internet. Muitas de suas afirmações podem no entanto ser aplicadas, até de forma amplificada, à nova mídia. Para o leitor brasileiro, vale salientar que o livro se refere quase que exclusivamente aos Estados Unidos. O livro no entanto merece a leitura. Para percebermos que o sorridente e belo casal de apresentadores não é tão natural, nem tão inocente assim.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

O Fogo e a Fúria, de Michael Wolff

WOLFF, Michael. The Fire and the Fury: inside the Trump White House. Edição Kindle, 2018. 321p.

Paulo Avelino

O fogo e fúria da Casa Branca caíram sobre este livro logo nos primeiros dias de 2018. Temendo que problemas legais pudessem impedir seu lançamento, a editora estadunidense antecipou-o para o dia 5 de janeiro, uma sexta-feira. Logo nas primeiras 48 horas o livro alcançou o topo.

Michael Wolff entrou o ano como virtualmente desconhecido. Terminou a sua primeira semana como celebridade mundial. Pelo que se vê na imprensa dos EUA, o jornalista nova-iorquino era mais conhecido como jornalista ligado à mídia e a celebridades, com um modo muito pessoal de escrever e ligado aos meios liberais, algo como um Truman Capote meio século depois e sem o mesmo charme.
Isso se reflete em seu livro. Segundo o próprio autor, o Fogo e a Fúria veio da possibilidade que a própria Administração Trump deu a ele – a de estar presente de forma costumeira na Casa Branca, a falar com uns e outros, registrando ou não as conversas, sem se tratar de entrevistas formais.

Trata-se portanto de livro de testemunhos e opiniões, de pessoas que lidam com Trump, sobre Trump e sobre si mesmos. Estilisticamente a obra segue os preceitos básicos do non-fiction estadunidense: a narração meio romanesca, a ênfase no suspense, a personalização dos fatos, no sentido de evitar grandes explicações econômicas e políticas. O resultado impacta.

O Fogo e a Fúria pode ser dividido em duas grandes partes. Na primeira Michael Wolff faz suas grandes revelações sobre Trump e sua equipe, razão pela qual as manchetes dos jornais sobre o livro se referiram basicamente a esta parte. O Presidente não queria ser eleito. Não gosta de ler. Não consegue concentrar-se por muito tempo em um assunto. Tem medo de morrer envenenado. E para um homem tão rico, tem preferências culinárias bem simplórias – gosta de cheeseburgers de fast-food.

A segunda parte desenvolve a primeira de uma forma cronológica nos primeiros meses da nova administração, a mostrar como a equipe e o presidente lidaram com cada crise – e elas foram muitas. Esta parte é mais árida, e exige mais conhecimento da política estadunidense.

A equipe de Trump tem criticado a obra. Tendo em vista o formato de livro de testemunhos quase sempre informais, não é de surpreender se parte dele se relevar impreciso. Ainda assim o Fogo e a Fúria assusta. De como pessoas tão medíocres, sem um plano definido, sem nenhuma grandeza política ou pessoal, sem nem mesmo muita cultura pudessem reunir tanto poder. A obra abala uma das crenças mais definidas que nós, que não temos poder, possuímos: a de que as pessoas que têm Poder o têm por alguma espécie de mérito. Muitos da equipe da Casa Branca lá estão apenas porque circulavam nos lugares certos com as pessoas certas, e mesmo essas pessoas certas só se tornaram assim porque por acaso venceram uma eleição que a maioria dava por perdida. Inclusive eles mesmos.

O Fogo e a Fúria tem suas limitações. Mas choca e revela – que é o que se propunha a fazer.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

A Última Viagem do Lusitânia, de Erik Larson

Histórias em uma Tragédia

LARSON, Erik. A Última Viagem do Lusitânia. Lisboa: Bertrand editora, 2015. 463p. Tradução de Raquel Dutra Lopes.

Paulo Avelino

O Lusitânia zarpou do porto de Nova Iorque no dia primeiro de Maio de 1915. Destinava-se à Inglaterra. Nunca chegou lá. Um navio, um submarino, uma série de acasos. E de quebra, milhares de vidas. Esta é a história que o escritor estadunidense especializado em não-ficção Erik Larson nos contra neste livro best-seller.

Em uma era de grandes navios o Lusitânia conseguia ser maior que quase todos, quase do mesmo tamanho que o Titanic, que afundara três anos antes. Não era uma boa época para navegar. A Primeira Guerra Mundial começara dez meses antes e se radicalizava – a Grã-Bretanha e o Império Alemão bloqueavam-se um ao outro pelo mar, procurando impedir o comércio. Por sua desvantagem em navios de superfície, o Comando Alemão apelava para uma arma nova – o Submarino.

Nova e mortal – os submarinos na época eram tão desajeitados que, quando um torpedo era disparado, o navio ficava subitamente leve em uma das pontas e os marinheiros precisavam correr para lá para fazer peso. E eram tão pequenos que só levavam sete torpedos. Apesar disso um só submarino era suficiente para afundar navios e mais navios em uma só rota. Dificilmente se podia saber onde estavam.

No dia 30 de abril uma outra embarcação partia, dessa vez de um porto militar alemão. O submarino U-20 tinha uma missão simples: afundar o que achar que devesse ser afundado em volta da costa da Grã-Bretanha. Comandava-o o capitão-tenente Walther Schwieger, de 32 anos, e uma pessoa doce, que “não mataria uma mosca”.

Os comandantes de submarino tinham muito mais poder que sua pouca idade lhes dava. As comunicações com o Comando Geral eram intermitentes. Quando próximos do inimigo submergiam e a partir daí todo conhecimento vinha de um periscópio, com uma visão estreita, que quase só o comandante usava, e que nem podia ser usado por muito tempo – deixava um rastro facilmente detectável. O resultado era que um jovem isolado no mar podia tomar a decisão de afundar ou não um navio cheio de civis, incluindo mulheres e crianças.

O livro conta a história do navio, do submarino que o acertou e também de pessoas em volta do drama, como a de certo senhor que pouco antes comparecera a um culto protestante e pedira às pessoas que o deixassem a sós. A sós com o caixão da esposa. Eles dificilmente poderiam lhe negar algo – era o presidente dos Estados Unidos, Thomas Woodrow Wilson. Meses depois sua prima o apresentou a uma amiga, uma viúva de 42 anos, Edith Galt. Foi uma paixão de cavalheiro por dama, de cartas contidas e passeios por jardins. Casar-se-iam depois.

A Última Viagem do Lusitânia vai no rastro da tendência da não ficção de ocupar um lugar anteriormente dos romances – a suspense, a emoção, os enredos envolventes, está tudo lá. Nele não se espere uma análise historiográfica, mas uma série de histórias bem contadas, entrelaçadas por um acontecimento. Emociona e convida a virar suas páginas – o que, suponho, era seu objetivo.