Uma Surreal Guerra
CARVALHO, Manuel. A Guerra que Portugal quis esquecer: o desastre
do exército português em Moçambique na Primeira Guerra Mundial. Porto: Porto
Editora, 2015. 269p.
Paulo Avelino
Os europeus desenharam fronteiras
em mapas, desentenderam-se e fizeram guerras. Mataram-se e mataram aos locais. Deixaram
cemitérios que hoje a floresta engole. Esta é a síntese.
Portugueses e alemães guerrearam entre
1914 e 1918 nos territórios dos atuais Moçambique e Tanzânia - uma frente da
Primeira Guerra Mundial. Envolveram-se também britânicos, belgas e colonizadores
sul-africanos – além dos africanos, que pagaram o maior preço. Hoje poucos o
sabem – mesmo nos países envolvidos. O jornalista português Manuel Carvalho conta
a história de um conflito olvidado.
Os portugueses dominavam parte da
costa oriental da África desde o século XVI (Moçambique). Os alemães poucas décadas
antes tomaram uma parte ao norte (a atual Tanzânia). Os Britânicos
assenhorearam-se da região mais ao norte ainda (o atual Quênia). Quando as
potências entrarem em guerra em julho de 1914, essas colônias também se
arrastaram ao conflito.
A grande Mídia só uma vez
catapultou essa guerra ao primeiro plano – no filme Entre Dois Amores (Out of Africa) na qual o charmosíssimo casal
Meryl Streep e Robert Redford vive história de paixão entre matas e guerra.
O livro relata a participação lusitana
na guerra. Uma pesquisa bem executada leva o leitor a lugares como o rio
Rovuma, Mocimboa da Praia, Porto Amélia, Pemba, Palma, Mtwara, cabo Delgado –
lugares em que mais de uma centena de milhares de pessoas viveram e mataram e
morreram.
O recente governo republicano de
Lisboa comprometeu-se firmemente com a guerra, embora nem tanto com os meios
para sua realização. Sucessivas expedições com tropas padeceram de falhas
básicas de logística, materiais, treinamento, remédios, até água potável no local.
Tão terrível quanto os alemães, a malária e as anemias mataram bem mais. Muitas
tropas eram compostas em grande parte de marginais, e nenhuma teve treino
adequado para o combate em terreno africano.
Juntam-se a grandiosidade e a podridão
de todo colonialismo – conhecemos gente como o capitão Teixeira Pinto, que
antes já submetera os guineenses à submissão. Os alemães o vararam de balas em
uma trincheira na batalha de Negomano. Ou como Paul Emil von Lettow-Vorbeck, o
comandante alemão que se convenceu de que resistir era possível, mesmo cercado
e sem receber suprimentos da Europa. E foi possível – para azar das pessoas que
moravam nas regiões onde ele fez a guerra. Também figuram fatos como a Campanha
do Barué – uma guerra de terra arrasada contra uma tribo supostamente rebelada,
que resultou nos saques, escravidão e milhares de mortos típicos do processo
colonizador.
Trata-se de livro com visão mais jornalística
que historiográfica. Privilegia mais a descrição documentada dos fatos que a
análise profunda de suas causas e de seu contexto, embora esta não esteja
ausente. Vale pelo conhecimento de uma realidade sanguinária e surreal –
europeus a lutarem por uma terra distante por uma guerra mais ainda.
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