A Cruz vence o Diabo mimético
Paulo Avelino
GIRARD, René. Eu via Satanás
cair como um relâmpago. 13ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2025. 271p.
Tradução de Martha Gambini.
Não pode ser acusada de
incoerente a carreira acadêmica do antropólogo francês tornado estadunidense
René Girard. Por décadas refinou o conceito por ele criado de teoria mimética,
ou mais estritamente de violência mimética e sua superação. Colocou essa ideia
em outro título também belo, “As Coisas Escondidas desde a Fundação do Mundo”,
de 1978, onde já fazia um gancho de sua teoria com as religiões como um todo. No
livro que comentamos, de 1999, segue a mesma linha mas a direcionar sua análise
à Bíblia e, mais ainda, aos evangelhos.
Inicia com o Décimo mandamento, livremente
falando, “Não cobiçarás as coisas ou bens alheios”. Isso, para Girard, representa
um interdito básico para a Humanidade não recair em conflito mimético.
Mimese, essa é a palavra-chave. Os
humanos imitam – e isso os faz humanos. O preço a pagar é que imitam também o
conflito, nascido do desejo mimético pelo que pertence ao outro. Esse conflito,
alimentado pelas próprias chamas, tende a se agravar e destruir a própria comunidade.
Isso coloca uma questão básica para os agregados humanos: como evitar a violência
interna. A solução é: escolher uma vítima, e contra ela jogar todo o ódio da
comunidade. Depois do sacrifício faz-se uma harmonia, por precária que seja. O Sacrifício
se torna Mito. O sacrifício do Bode Expiatório é atualizado posteriormente em
cerimônias. O Mito se torna Rito.
Todas as culturas seriam assim,
segundo Girard. O Velho Testamente traz uma novidade: a vítima (por exemplo, José
do Egito ou Jó) são inocentes. Condenada é a multidão que a condena – multidão imersa
nas trevas do conflito mimético. E a Ressurreição de Cristo supera o conflito
mimético, não por um Mito, mas pela exposição de seu caráter de espiral destrutiva
– em outra palavra, satânica. Cristo ressuscita e quebra a espiral de violência.
Essa é a revolução dos Evangelhos. A Cruz vence Satanás.
Isso explicaria como a monoteísmo
cristão se impôs com tanta facilidade a outras religiões mais antigas, de corte
mítico. Para Girard os mitos pouco têm de belo – debaixo deles está a violência,
entre si ou contra vítimas inocentes.
O livro termina por ser quase uma
apologia do Cristianismo. Não faltam elogios às religiões cristãs mas a maioria
é autorreferenciada – utilizam-se trechos da própria Bíblia para afirmar a
verdade da Bíblia. O autor parte de um princípio laico, por assim dizer – a análise
antropológica. E conclui pelo elogio ao Crucificado.
Trata-se de uma visão abrangente e sem dúvida original. Debatível, sem dúvida, mas uma fecunda vertente de análise sobre a Cultura Humana e mais ainda sobre o próprio Cristo – de quem parecia não haver nenhuma possibilidade de dizer algo novo.

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