domingo, 26 de julho de 2026

Resenha de Livro - John e Paul, de Ian Leslie

 Gênios em foco

Paulo Avelino

LESLIE, Ian. John and Paul: uma história de amor feita de canções. 1ª Ed. Lisboa: Ed. Zigurate, 2025. 480p. Tradução de Sara Veiga.

Eram quatro garotos musicais de menos de vinte anos de humilde classe média naquela Liverpool industrial em 1960. George e Paul ainda moravam com os pais. Eles se encontravam no apartamento que dividiam John e... Stuart Sutcliffe. John estudara no colégio Quarry e assim o seu conjuntinho musical se chamava Quarrymen. Mas saíra da escola e procuravam outro nome. Na época estavam em voga os nomes do tipo Chefe and Os Demais, como Buddy Holly and The Crickets, de quem eram fãs. Chegaram a pensar em “Johnny and The Moondogs” mas a John desagradava a ideia de um líder. Cricket é gafanhoto. Stuart veio com a ideia de também terem nome de inseto. Todos eram admiradores da poesia da Geração Beat. Beetle é besouro. Eles seriam os besouros admiradores dos Beats... os Beatles.

Engana-se quem esperava como autor algum Beatlemaníaco capaz de exibir coisas como uma bituca de cigarro que Lennon teria fumado em 1963 como orgulho de seu acervo pessoal. O britânico Ian Leslie não exibe uma longa carreira de estudos de minúcias na já tão devassada trajetória dos Quatro de Liverpool. Trata-se um pesquisador do comportamento humano, com muitos livros na área e nenhum sobre música. O que explica o tema: trata da interação humana entre dois grandes compositores através da história das suas canções.

O que não impede de ser revelar a história geral do grupo. John (Lennon), Paul (McCartney) e George (Harrison) são hoje lendas do Pop, como o seria Stuart Sutcliffe se o destino e um aneurisma cerebral não o tivessem levado exatamente quando os amigos estavam a ponto de se tornar estrelas internacionais. Quanto a Ringo Starr, era de outro conjunto e só entraria depois.

Os capítulos do livro são nomes de músicas, algumas que metade do Mundo poderia cantarolar até hoje como Hey Jude, She Loves You e Yesterday. Aliás, para o público não-especializado, meu caso, um dos pontos mais saborosos são as anedotas de origem de alguns megassucessos. É interessante saber que Penny Lane não é nenhuma langorosa adolescente britânica mas uma rua de Liverpool, que termina numa rotatória – e era nesta que os estudantes John, Paul e George esperavam o ônibus para a escola. Ou a história de que Paul não achou que John tinha sido justo ao se separar de sua primeira esposa Cynthia. Foi até a casa dela e lhe deu um abraço e uma rosa – coisa que Cynthia valorizou muito. Dirigindo o carro na volta Paul cantarolou seguidamente duas notas, numa homenagem ao filho dela e John, um garoto de cinco anos, Hey Julian, que depois mudou para Hey Jude.

John and Paul não é uma biografia padrão da Banda. O autor analisa as canções para esclarecer a evolução do relacionamento entre os dois geniais compositores. Tudo o mais só entra na medida em que influi nesse relacionamento. George e Ringo, por exemplo, ficam na sombra, assim como as circunstâncias sociais que possibilitaram o imenso sucesso do  grupo. Mas trata-se de uma forma válida de introduzir o leitor não iniciado no Universo do Quarteto de Liverpool.

sexta-feira, 17 de julho de 2026

As guerras napoleônicas: uma história global, de Alexander Mikaberidze

 Napoleão Globalizado

Paulo Avelino

MIKABERIDZE, Alexander. Les guerres napoléoniennes: une histoire globale. 1a ed. Paris: Flammarion, 2020. 1180p. Tradução de Thierry Piélat.

 

Um dos episódios mais consequentes da História brasileira aconteceu quando em agosto de 1807 os ingleses invadiram a Dinamarca. Não era luta justa: de um lado o Império Britânico, desde a Índia até o Canadá, com uma marinha que esmagava a tudo e todos, e do outro lado o pequenino reino báltico. E nem muito cavalheiresca: os ingleses bombardearam a capital dinamarquesa visando não só às fortalezas mas à cidade. Em poucas semanas os dinamarqueses capitularam.

Um plebeu chamado Napoleão Bonaparte se proclamara imperador da França e os países fracos tinham de decidir entre a truculência inglesa, que dominava o mar, e a francesa, que dominava a terra. O rei de um pequeno país do outro lado da Europa roía as unhas. O príncipe regente Dom João viu o que acontecera com os dinamarqueses - o que os ingleses eram capazes de fazer com quem os desagradava. Que não era muito diferente do que os franceses fariam. Entre a Espada e a Cruz decidiu se se lançar aos braços dos ingleses e ao mar. As tropas de Napoleão vieram castigá-lo pela escolha, mas então ele já fugira para o Brasil e começara um processo que desembocaria na Independência. E assim um bombardeio em Copenhague se tornou fato importante em nossa História.

O livro do historiador georgiano radicado na Luisiana Alexander Mikaberidze escapa do lugar comum sobre Napoleão, que o trata como acontecimento meramente europeu. Livro recente (de 2020 na edição original) e ainda não traduzido em português, eu o encontrei na loja do Museu de Waterloo, na Bélgica, entre os inevitáveis imãs de geladeira e camisetas de gola regata com a cara do Imperador e uma pilha de livros de detalhadíssimos relatos da última batalha, Waterloo. Não me interessaram (comprei um imã de geladeira, vá) mas eu queria mesmo, não sem algum egocentrismo, era saber de Napoleão e do Brasil. Por extensão, Napoleão e o mundo.

O livro conduz o leitor desde uma invasão nas ilhas Maurício no Oceano Índico até as negociações francesas com o Xá da Pérsia e a primeira proclamação de independência do México pelo Padre Hidalgo. Essa abrangência constitui o ponto forte e também o ponto fraco da obra. São quase 150 páginas só de bibliografia e notas. E, talvez por ter muito o que relatar, o autor quase não faz análise – pouco se detém nas relações entre o cultural e o político ou sobre o espalhamento das ideias da Revolução Francesa fora da Europa, impulsionadas de alguma forma por Napoleão. E batalhas clássicas como Austerlitz, Borodino e Leipzig descritas apenas rapidamente. As extensas narrações factuais ocupam a maior parte da obra e às vezes tornam a leitura árida.

Vale como livro de consulta talvez mais que como obra para ler de capa a capa. Tem o mérito de reunir episódios disparatados em um volume só. Para entusiastas da época é valioso ter na biblioteca. Para os demais, devjdo à amplitude do assunto, vale uma leitura focada nas partes do mundo que interessam. Como foi ampla a controversa mas sempre importante odisseia napoleônica.

terça-feira, 29 de abril de 2025

As Aventuras de Pinóquio, de Carlo Collodi

 Filosofias de Pinóquio

Paulo Avelino

COLLODI, Carlo. As Avent
uras de Pinóquio: A história de um boneco. Jandira, SP: Ciranda Cultural, 2022. 240p. Tradução de Beatriz Camacho.

SOBRE POLÍTICA SALARIAL:

- E o que ele faz da vida?

- É pobre.

- Ganha muito?

- Ganha o necessário para não ter um tostão no bolso. (p66)

SOBRE PEDAGOGIA E MEDICINA:

- Sim. Porque quero ir à escola e estudar com afinco.

 - Olhe para mim! – falou a raposa.  – Por essa paixão estúpida pelos estudos eu perdi uma perna.

- Olhe para mim – falou o gato. - Por essa paixão estúpida pelos estudos eu perdi a vista dos dois olhos. (p68)

SOBRE TOPONÍMIA:

- E para onde querem me levar?

- Para a Vila dos Tolos. (p69)

SOBRE MEDICINA LEGAL:

- Ao meu ver, o boneco está morto de vez, mas, se por alguma desgraça não estiver totalmente morto, então será um bom indício de que ainda está vivo!

- Sinto muito – disse a Coruja – em ter de contradizer o Corvo, meu ilustre amigo e colega, mas, para mim, o boneco ainda está vivo. Mas, se por alguma desgraça não estiver vivo, então será um sinal de que está realmente morto. (p93)

AINDA SOBRE TOPONÍMIA:

Depois de terem caminhando por quase meio dia, chegaram a uma cidade chamada Pega-Trouxa. (p105)

SOBRE DEFICIT INTELECTUAL:

- Afinal – gritou Pinóquio, raivosamente -, posso saber do quer você tanto ri, Papagaio mal-educado?

- Eu rio daqueles trouxas que acreditam em qualquer asneira e que se deixam enganar por quem é mais esperto do que eles.

- Está falando de mim, por acaso?

- Estou, pobre Pinóquio. (p110)

SOBRE DIREITO PENAL E O SENTIDO DA VIDA:

- Se os outros estão saindo da prisão, eu também quero sair – disse Pinóquio ao carcereiro.

- Você, não – respondeu o carcereiro -, pois é irrelevante...

- Peço desculpas – replicou Pinóquio -, mas eu também sou um ladrão.

- Neste caso, você tem razão. (p112)

SOBRE COMBATE À DESNUTRIÇÃO:

- Mas veja só! – respondeu o boneco, ofendido. – Para seu governo, eu nunca fui burro de carga. Eu nunca puxei carroça!

- Melhor para você! – respondeu o carvoeiro. – Então, garoto, se você está mesmo morrendo de fome, coma duas belas fatias de sua soberba e cuidado para não ter uma indigestão. (p140)

SOBRE ENSINO:

- Mas por que você está preocupado com a escola? Vamos para a escola amanhã. Com uma aula a mais ou a mesmo, continuaremos burros do mesmo jeito. (p150)


quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

A Grande História da Bélgica, de Patrick Weber

Um pequeno país europeu

Paulo Avelino

WEBER, Patrick. La Grande Histoire de la Belgique. Paris: Editions Perrin, 2016. 426p.



Poderia ser um best-seller: Maria aos 20 anos descobriu que seu pai morreu, deixando na mão da filha única um pedaço das terras mais ricas da Europa. Morte violenta e previsível: o pai de Maria era tão briguento que passou a ser conhecido como Carlos o Temerário. Maria herdou o título de Duquesa de Borgonha e um abacaxi dos diabos. Seu pai, o guerreiro, e seu avô Felipe, este uma raposa política, passaram suas vidas a defender suas terras dos vizinhos, o Imperador Germânico e o Rei da França. Maria não tinha muitas armas para se defender mas tinha um trunfo: ela mesma. Ofereceu-se em casamento a outro rico herdeiro, Maximiliano, o mais velho da poderosa família austríaca dos Habsburgo. Em 1477 casaram-se. Só que ao contrário do que se poderia imaginar Maria e Maximiliano realmente se gostavam e fizeram um casamento feliz. Seu neto seria Carlos V, o homem mais poderoso da Terra, e seu bisneto seria Felipe II, rei da Espanha e Portugal, que também reinaria sobre o Brasil.

Patrick Weber faz parte de uma geração que pouco tem em comum com o velho historiador livresco de antigamente. Multimídia, escreve livros de história, apresenta programas de TV, desenha histórias em quadrinhos, faz romances policiais e é além de tudo o cronista oficial da família real da Bélgica. A necessidade de síntese e de uma escrita que prenda o leitor se faz sentir pelas páginas desse pequeno volume que abrange a história do país europeu desde o paleolítico.

A Bélgica como país existe apenas desde 1830. Contudo o autor faz grande esforços para ver nessa história uma continuidade desde a Idade Média, com o surgimento do Condado de Flandres e do Ducado de Brabante, origem longínqua da divisão da Bélgica atual entre uma população que fala francês e uma que fala neerlandês. Trata-se de história em grande parte gêmea com o de seu vizinho do Norte, conhecido como Holanda. Aliás foi Felipe, avô de Maria, quem pela primeira vez dividiu seus domínios em Países do Alto, ao Sul, e Países Baixos, esses equivalentes às atuais Bélgica e Holanda. E o nome pegou.

Depois de sua independência a Bélgica cresceu como eixo industrial, com a mais densa rede ferroviária do continente, grandes depósitos de carvão e uma população de trabalhadores mal pagos, o que gerava grandes lucros. Lucros que impulsionaram a expansão para a África, para o Congo, que fizeram Colônia, no qual ocorreram atrocidades inimagináveis no processo de exploração da população local, especialmente no período de 1885 até 1908, sob o rei Leopoldo II. Outro ponto alto da obra é o reinado de Alberto I, o rei soldado e alpinista, que morreu despencado de uma montanha e visitou o Brasil.

O livro enfatiza a grande história política e não se aprofunda nos subterrâneos da sociedade, particularmente sobre as condições de vida dos que não eram reis ou ministros. Mas se trata de uma boa introdução à relativamente pouco conhecida história do pequeno e importante país europeu.


quinta-feira, 3 de agosto de 2023

História de Veneza, de John Julius Norwich

 

History of Venice, de John Julius Norwich

A Cidade Única

Paulo Avelino

NORWICH, John Julius. A History of Venice. Londres, Reino Unido: Penguin Books, 2012. 673p.

Talvez a mais ilustre licitação de obra pública de toda a História aconteceu em Veneza no século XVI. Precisava-se construir uma nova ponte. No mesmo lugar havia uma ponte de madeira, que fora destruída por duas vezes, por uma revolta e outra vez por um motivo mais trágico ainda, pelo peso da multidão que se reunira para uma festa. Finalmente a Signoria (governo da cidade) decidiu resolver o problema de uma vez por todas e fazer uma ponte de pedra. Lançou a licitação. Arquitetos enviaram seus projetos. Todos os concorrentes constam na Wikipedia e na História: Sansovino, Vignola, Scamozzi e Palladio, todos célebres e com opulentos currículos de palácios e igrejas. Mas havia mais um arquiteto concorrente: um certo Michelangelo, autor de uma certa Pietá e de uma certa Capela Sistina.

Assim é Veneza. Uma República independente que durou do ano 421 (segundo a lenda) até 1797 quando Napoleão enviou soldados para conquistá-la. República em uma Europa coalhada de monarquias e República estável em uma Itália infestada por irrequietos condottieri (senhores da guerra). E hoje uma cidade desse novo país, a Itália - só que os ônibus são aquáticos, assim como os táxis aquáticos para os apressados, os caminhões de entrega, de lixo e de bombeiros – todos aquáticos a deslizar nos canais entre prédios que não mudaram muito pelo menos nos últimos 200 anos. O historiador inglês John Julius Norwich era conhecido por sua atuação na televisão britânica. Escreveu nos anos 1970 este longo hino em prosa de amor à cidade. Veneza é única.

Essa originalidade leva a uma multiplicidade de facetas da Urbe, e entre todas o autor escolheu a que provavelmente tem menos interesse para o turista encantado que compra esse volume. Trata-se de uma história política e até certo ponto militar da Sereníssima República de Veneza. O leitor interessado nas maravilhas de Tintoretto e Bellini recebe páginas a falar de hoje obscuros Doges ou de guerras entre cidades italianas na Renascença tão confusas que é de se perguntar se seus protagonistas mesmo as entendiam. Boa parte do livro se passa longe da cidade pois descreve guerras em suas colônias, como Chipre e Creta.

Aspectos como a base econômica disso não são praticamente tratados. Particularmente certos aspectos pouco nobres do comércio veneziano, como o tráfico de escravos, principalmente da região dos Bálcãs. A cidade em si é pouco enfatizada. A cidade – sua expansão, arquiteturas,  lógica urbana, escolas de arte, estrangeiros ilustres que por lá passaram, além de costumes como o carnaval, que se expandiu até o Brasil.

Ainda assim se trata de uma boa introdução a Veneza. Quanto à licitação, nenhum dos ilustres concorrentes a venceu, nem mesmo Michelângelo. Quem ganhou o contrato foi um certo e corretamente nomeado Antônio da Ponte. A Ponte é a do Rialto, um dos cartões-postais da cidade, que multidões cruzam hoje sem que desabe – o que mostra que o desconhecido vencedor da licitação não era tão ruim assim, afinal.


domingo, 6 de fevereiro de 2022

Os Habsburgos, de Martyn Rady

 

Mil Anos de Poder

Paulo Avelino

RADY, Martyn. Os Habsburgos: ascensão e queda de uma potência global. Lisboa, Portugal: Círculo de Leitores, 2021. 532p. Tradução Diogo Marques.

 

Maria Teresa tinha um problema, aliás vários. Era Rainha da Hungria e da Boêmia, Arquiduquesa da Áustria e de quebra Imperatriz do Sacro Império Romano-Germânico, mas mesmo os grandes têm problemas. Um deles era o persistente, diligente e chato Rei da Prússia, Frederico II O Grande, que passou metade da vida a querer tomar as possessões da vizinha, por política ou guerra. O outro era como manter o seu sobrenome. Era uma Habsburgo, casou-se com um certo Francisco Estêvão, Duque de Lorena, alguém com muito menor pedigree e capital, político e financeiro. Ainda assim, por ser homem, ele é que normalmente deveria passar seu sobrenome para ela. A solução foi simples: ele compôs o sobrenome com o da esposa. Passou a se chamar Francisco Estêvão de Habsburgo-Lorena.

Décadas depois a bisneta de Maria Teresa casou-se com um príncipe de Portugal, que no momento morava em um certo Brasil. E foi anunciada como Maria Leopoldina de Habsburgo-Lorena, esposa de Pedro I.

A poderosa família austríaca dos Habsburgos tem a ver com o Brasil, assim como tem a ver com quase tudo na face do planeta, desde as Filipinas até os países hispanos nossos vizinhos, a Bélgica, Hungria, Itália, Holanda e muitos outros países. Este recente livro do professor inglês e conhecedor da cultura húngara Martyn Rady traça um panorama enciclopédico da trajetória da família, desde quando por volta do ano 1000 eram pequenos senhores de terra na região entre as atuais Suíça, Alemanha e Áustria, até 1918, quando o último deles perdeu o poder, defenestrado após a derrota na Primeira Guerra Mundial.

Há histórias ótimas, como a da origem do sobrenome da primeira Imperatriz do Brasil. Também a da vampiromania que assolou a Europa em meados do século XVIII, com o respeitável testemunho de Voltaire, que em afirmou que em Paris nada se falava tanto quanto de vampiros – como eram caçados, seus corações arrancados e seus corpos queimados. Ou com a relação de Mozart com a cultura musical da época do Imperador José II – que não era um parvo como o retratou o filme Amadeus, mas um reformador tanto ambicioso quanto implacável.

Ambição aliás nunca falou nos Habsburgos, nobres que nasciam com dinheiro e terras e sempre pareciam querer mais. Destacam-se algumas personalidades, como o inescrupuloso Rodolfo I, o pioneiro da família a ocupar um trono real. Ou Carlos V, a quem uma sucessão de casamentos espertos e oportunos falecimentos de parentes concedeu um Império que se estendia por todo o globo. E familiares por afinidade, como a belíssima Duquesa Elizabeth da Baviera, a Sissi dos filmes e atração-mor do turismo hoje em Viena. Fechando com o piedoso Carlos I, beatificado pela Igreja, cuja fé foi insuficiente para manter o Império.

O livro de Martyn Rady serve tanto como uma visão enciclopédica da história europeia dos últimos mil anos como uma leitura de diletantismo a alimentar boas conversas com anedotas históricas.

 

 


sábado, 25 de abril de 2020

Rondon - uma biografia, de Larry Rohter


O Marechal entre dois mundos

Paulo Avelino

ROHTER, Larry. Rondon – uma biografia. Rio de Janeiro: Objetiva, 2019. Tradução: Cássio de Arantes Leite. 565p.

Não sabiam bem onde estavam. Apenas que era o estado de Mato Grosso, ou talvez já Amazonas, e que estavam enfiados na selva havia 36 dias. Só tinham avançado 150 quilômetros naquele rio. Também não sabiam qual era o rio. À falta de nome chamaram-no Rio da Dúvida –nome adequado para um rio do qual se desconhecia quase tudo. Sabiam apenas que em suas frágeis canoas lutavam diariamente contra corredeiras, que já tinham comido metade das rações, que entre os membros da expedição já ocorrera um assassinato, e que um dos dois líderes delirava de malária e pedia para ser abandonado. A morte de qualquer ser humano é uma tragédia, mas a morte daquele homem seria além disso um incidente diplomático. Aquela expedição tinha nas suas mãos a vida de um ex-presidente dos Estados Unidos.

Larry Rohter morou por muito tempo no Brasil como correspondente de jornais dos EUA. Escolheu como tema uma figura mais conhecida de alguns brasileiros por ser o nome de um velho projeto do Regime Militar, que levava estudantes a trabalhar no interior, o Projeto Rondon, reeditado anos atrás. Também poucos lembram que o nome do estado de Rondônia é homenagem a ele.

Cândido Mariano da Silva Rondon adotou esse sobrenome como seu – o Rondon é de ascendência indígena. No seu nome já veio a contradição na qual se equilibrou toda a sua vida – entre a civilização dos brancos e a dos nativos, sempre a tentar integrar os mais fracos na sociedade dos mais fortes de forma a que sofressem o mínimo possível com isso.

Havia poucas oportunidades para um garoto mato-grossense nascido em 1865 e uma das poucas era o Exército. Aluno brilhante da Escola Militar, o jovem Cândido teve uma participação menor na Proclamação da República. Na Escola conheceu também a Religião Positivista, a qual seguiria por toda a vida. Sua carreira estava destinada a ser tranquila e estável quando poucos anos depois o chamaram para estabelecer linhas telegráficas cruzando florestas que o homem branco não havia cruzado. Voltou então às selvas. E descobriu que eram cheias de pessoas a quem os brancos conheciam pelo nome genérico de índios. Nascia então a sua luta de toda a vida.

O popularíssimo ex-Presidente estadunidense Theodore Roosevelt queria esquadrinhar a selva. O governo brasileiro pressentiu o perigo e chamou o já experimentado explorador Rondon para dividir a liderança do grupo – e para salvar o visitante, se necessário.

Verdadeiro pesadelo verde, oportunidades de salvamento não faltaram. Na expedição Roosevelt-Rondon sobraram fome, crime, cachoeiras, doenças. Depois de muito sacrifício os brasileiros, Rondon à frente, conseguiram fazer com que Roosevelt saísse da floresta vivo, uma proeza de não pequena dificuldade. O rio da Dúvida como homenagem se tornou rio Roosevelt.

O fim do livro trata do que ficou do Marechal Rondon. Muitas das selvas que ele esquadrinhou não mais existem. No entanto a luta pelos direitos dos povos indígenas, os quais ele tanto promoveu, continua atual e mantém a importância do seu legado.

terça-feira, 24 de dezembro de 2019

Uma Noite em Lisboa, de Erich Maria Remarque


Tempos de Medo

Paulo Avelino

REMARQUE, Erich Maria. Uma noite em Lisboa. 2ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1974. 242p. Tradução de Bélchior Cornélio da Silva.

Lisboa começo dos anos 40 e dois estranhos contemplavam navios no porto. Tempos de medo: com a Europa em guerra, Portugal é um dos poucos países neutros. E para lá confluíam pessoas de todo o continente, restos de humanidade que o crime da guerra criou: gente empobrecida, perseguidos por motivos políticos, temerosos de genocídios e até alguns espiões. Vinham psicologicamente estropiados de terror e de uma maratona de obstáculos em outros países: exigências de passaportes, vistos, atestados, certidões de permanência e de bom comportamento, uma pletora de controles que visavam a convencê-los de que o humano não era nada e que frequentemente convencia. Lisboa era ponta e trampolim: de lá muitos queriam cruzar o Atlântico, geralmente para os Estados Unidos. Mas faltavam passaportes, vistos e vagas nos navios. Poucos conseguiam.

Os estranhos contemplavam os navios que os salvariam, se lá pudessem entrar. O primeiro ouviu o outro chamá-lo. Pulou de medo, pois podia ser polícia secreta, e fica claro logo nas primeiras páginas o tom do romance. A perseguição fizera daquelas pessoas uns perfeitos paranoicos. Acostumadas a revistas e interrogatórios de guardas aduaneiros, policiais ferroviários, agentes à paisana, para eles todo desconhecido era um perigo em potencial. O segundo homem disse que se chamava Schwarz, que tinha duas passagens em um navio parta Nova Iorque, que queria dá-las para o primeiro, e que em troca apenas queria que o primeiro ouvisse a sua história.

Erich Maria Remarque escreveu o primeiro best seller da era moderna, Nada de Novo na Frente Ocidental (Im Westen nichts neues) e ainda é por essa obra conhecido. Não sem certa injustiça: o autor alemão, agora profissional dos livros e morando na Suíça, escreveu uma série de livros, geralmente com guerras como pano de fundo, mas tendo como tema real o horror humano dentro dos conflitos. Escreveu Uma Noite em Lisboa no começo dos anos 60.

Schwarz contou sua história ao outro durante aquela noite em Lisboa, em lugares que se podem reconhecer vagamente como cafés e prostíbulos na Alfama, sempre saindo de um para outro quando fechava ou quando desconfiavam ser observados por alguém que podia ser polícia à paisana. Não se chama na verdade Schwarz – esse é o nome no passaporte de outra pessoa, que ele utiliza. É perseguido político pelo Nazismo, sem que se saiba maiores detalhes sobre suas convicções. Helena, sua mulher, vinha de uma família de nazistas mas os detestava. Juntos empreendem fuga rocambolesca por vários países da Europa, enganando guardas, dormindo em lugares públicos, dando nomes falsos, e passando longo tempo em igrejas e museus (pois eles têm pouca vigilância). A narrativa quase sufoca, é nervosa de tantas peripécias. Simpatiza-se facilmente com o casal, sua fragilidade e ternura.

Trata-se de leitura infelizmente atual. Infelizmente pois há quem simpatize com nazismos e fascismos. Esse livro dá face humana às suas vítimas – nós.


terça-feira, 17 de setembro de 2019

Capitalismo e Colapso Ambiental, de Luiz Marques


Antídoto contra o perigo

Paulo Avelino

Marques, Luiz. Capitalismo e Colapso Ambiental. 3ª ed. revista. Campinas/SP: editora da Unicamp, 2018. 735p.

Quando o perigo vem, o animal foge. Mas quando aquele o surpreende, o bicho se paralisa na esperança de que o mal suma. Esse é o autoengano. Há também a denegação: saber que as coisas existem mas pensar que não são tão ruins assim.

Esse ensaio do professor Luiz Marques pode ser lido como um antídoto contra essas duas atitudes. Trata-se de aposta ousada: afinal é vasta e crescente a literatura sobre os problemas ambientais, particularmente sobre o aquecimento global. E seu autor não é o climatologista ou biólogo que se poderia esperar, mas um historiador de arte renascentista italiana.

Com tudo isso Luiz Marques explorou competentemente o assunto. Realizou pesquisa abrangente em assunto tão amplo e seu livro apresenta atração adicional para o leitor de 2019, que é a de ter sido recentemente atualizado. Livros sobre a crise ecológica caem rapidamente na obsolescência.

A primeira parte traça um panorama enciclopédico do estado do ambiente hoje e se denomina “Convergência das crises ambientais”, pois se trata exatamente disso. O problema não é só a emissão de gases de efeito-estufa na atmosfera, causando o chamado aquecimento global. A diminuição das florestas, o declínio dos recursos hídricos, o depósito de lixo nos oceanos, o colapso das biodiversidades aquática e terrestre, tudo compõe um mosaico que aponta para um Antropoceno e uma hipobiosfera, ou seja, um planeta moldado pela presença humana e com menor riqueza biológica.

Surpreende a recorrência de problemas que normalmente se supõem superados ou ao menos equacionados. O recente aumento do uso do carvão como combustível, quando se sabe que é um dos principais causadores da mudança climática. Também a revisão das previsões anteriormente otimistas quanto ao decréscimo da taxa de aumento demográfico, que faz com que o momento do zero crescimento seja empurrado cada vez mais para o futuro. E o aumento da taxa de destruição da floresta amazônica, já perceptível quando o livro foi escrito.

A segunda parte procura dar um sentido e uma saída a toda essa miríade de problemas convergentes. Para o autor, a crise atual parte de três ilusões concêntricas: primeiro, a ilusão de um capitalismo sustentável – qualquer tipo de crescimento não é mais possível; segundo, a noção de que quanto mais excedente, mais segurança, compreensível em uma espécie que passou privações tanto tempo, mas que se revelou falsa; e finalmente a ilusão antropocêntrica, de caráter filosófico, que crê ser o Humano o pináculo dos seres, com todos os outros inferiores a ele, e podendo se servir deles de acordo com as conveniências humanas.

Resta a saída. O autor dá apenas pistas. A lógica de acumulação não pode mais ser mantida – não se quisermos preservar o planeta o mais habitável possível. E não faz diferença se a lógica acumulativa se encontra em empresas privadas ou em economia socialista. Para tanto é necessária uma redistribuição de poder. Caminhos difíceis, e talvez inevitáveis.

segunda-feira, 18 de março de 2019

A Terra Inabitável, de David Wallace-Wells


Tragédias à porta

Paulo Avelino

WALLACE-WELLS, David. The uninhabitable Earth: life after warming. New York: Tim Duggan Books, 2019. 310p.

Primeiro o calor atmosférico, destruindo vidas em suas ondas; depois, a fome, com dezenas de milhões de migrantes a bater às portas de países ricos que não querem recebê-los; ao mesmo tempo as enchentes, com cidades costeiras a serem corroídas pela maré crescente; seguidos dos incêndios e deslizamentos e continua por aí. Pragas bíblicas em esteroides, as calamidades decorrentes do aquecimento global tornam quase ridícula a escala dos problemas do velho Egito do tempo dos profetas.

Nisso consiste a mensagem do livro de estreia do jornalista nova-iorquino David Wallace-Wells, editor de periódicos culturais. Não sendo especialista, consultou a bibliografia e entrevistou profissionais e desse trabalho decorreu esse livro que não se trata de um documento sobre a ciência do aquecimento global, mas de um apanhado das hipóteses mais prováveis do que ocorrerá com nosso mundo nas décadas a seguir.

E o quadro, em geral, não é belo. Após uma parte introdutória na qual sintetiza os problemas, segue-se uma série de capítulos, cada um dedicado ao que podemos rotular de uma desgraça. Os desastres assim chamados naturais não podem mais ser assim considerados, haverá falta de água potável, o ar já está sujo e se tornará mais ainda, ondas de novas doenças desconhecidas e de velhas doenças reforçadas atormentarão os humanos, a economia sofrerá com uma produção cada vez menor e como cereja do bolo ainda teremos guerras por questões de clima.

Um velho aforismo da arte de escrever ficção diz que não se pode escrever muitas desgraças seguidas, pois o leitor tende a se desengajar. Por isso os filmes de terror, quando exagerados, terminam por fazer parte da plateia rir de tanta tragédia. Este é um dos efeitos da leitura desse livro. O aquecimento global atinge os vitais interesses humanos de maneira tão destruidora e diversificada, segundo o autor, que o leitor quase que naturaliza as desgraças, e cada página virada o faz não só esperar, como (quase) querer mais.

Há, no entanto, o pior. Segundo o livro, a maior parte das pessoas pensa no aquecimento global como um evento lá pelo final do século, um futuro enevoado, a ser visto no máximo pelos bebezinhos de hoje quando chegarem uma sólida terceira idade. Não é o caso. Os efeitos, ou seja, as marés altas, os incêndios e as vagas de migrantes a causar instabilidade política estarão entre nós em questão de décadas, talvez uma década, e alguns de seus efeitos já se fazem sentir. Isso muda a perspectiva do futuro de nossas próprias vidas.

O autor não consegue explicar bem uma questão – a de por que, em meio a tanta miséria, ele mesmo teve uma filha recentemente. Titubeia, fala de luta, de estar fascinando pelos problemas que a filha vai ver,  na parte talvez menos convincente da obra.

Pode-se criticar a falta de interesse na América Latina e no Brasil em particular, excetuando algumas menções à floresta amazônica. No geral é livro assutador, o que, da perspectiva do jornalista, talvez seja um elogio.


segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Contra as Eleições, de David van Reybrouck


Eleições como inimigas da democracia

Paulo Avelino

REYBROUCK, David van. Contra as Eleições. Belo Horizonte: Âyine, 2017. Tradução de Flávio Quintale. 286p.

Há algo estranho com a democracia: todos parecem desejá-la, mas ninguém acredita mais nela – esta é literalmente a primeira frase do livro. Seguem-se estatísticas a demonstrar que em todo o mundo a democracia desfruta de alto prestígio. Trata-se de novidade histórica: no tempo da Segunda Guerra a democracia era desprezada, com poucas delas a funcionar no mundo.

Essa popularidade contrasta com a percentagem de pessoas que diz não dar importância a parlamentos, com o absenteísmo nos pleitos, e com os números cada vez menores de filiação a partidos políticos. Para essa contraditória porém real crise este pequeno ensaio pretende sugerir uma resposta.

O belga David van Reybrouck não é o circunspecto especialista que se poderia esperar. Já escreveu antropologia, história da África e peças de teatro. Nesse trabalho enfrenta a questão do sistema político de hoje.

E não o faz de maneira de maneira a apenas narrar, mas visa também a oferecer soluções. Depois de constatar a crise, analisa os diagnósticos correntes. A culpa seria dos políticos, da tecnocracia, da própria representação. Critica todas essas análises, e afirma que podem originar remédios inefetivos ou piores que a doença, caso da eleição de líderes demagógicos que se elegem com meia dúzia de frases feitas com apelo emocional, ou pelo assembleísmo que paralisa as decisões. A democracia, segundo ele, precisa conciliar duas necessidades: a eficiência e a legitimidade.

Propõe outro diagnóstico: a culpa seria da representação eleita, e a palavra-chave é “eleita”. Em afirmação ousada, diz que eleições fazem mal à democracia. É plenamente consciente do impacto do que fala, em um mundo em que democracia e eleições se tornaram praticamente sinônimos.

Para desfazer essa ideia, o autor esmiúça as origens gregas da ideia democrática e sua evolução em cidades-estados na Idade Média e Renascimento. Estabelece que, em tais exemplos históricos, a escolha de governantes e legisladores se fazia fundamentalmente por sorteio, sendo eleições um aspecto secundário no sistema político.

Em seguida investiga as origens do sistema eleitoral atual, nos séculos XVIII e XIX. Para talvez surpresa de muitos, afirma que as eleições foram estabelecidas não para fazer com que o próprio se governasse, mas para criar uma camada diferenciada, que governaria.

Para os males das eleições sugere um sistema de câmaras múltiplas, com  rigorosa divisão de poderes, cujos membros seriam escolhidos por sorteio, com voluntariado em alguns poucos casos. Os sorteados contariam com assessoria técnica no seu trabalho de elaborar as leis.

Pode-se concordar ou não com as ideias de van Reybrock, e especialmente com suas sugestões. Mas dificilmente se pode contestar a tempestividade de seu ensaio. A eleição de líderes de pensamento simplista, com muita retórica e poucas soluções concretas, além do apelo ao emocionalismo, tornam urgente a reforma do modelo democrático atual, sob pena de sua destruição.

E o que vier depois pode ser muito pior.

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

A Marcha da Insensatez, de Barbara Tuchman


O Espectro das políticas autodestrutivas

Paulo Avelino

TUCHMAN, Barbara. A Marcha da Insensatez: de Troia ao Vietnã. Rio de Janeiro: José Olympio editora, 1986. 1a edição estadunidense, 1984. Tradução de Carlos de Oliveira Gomes. 448p.

Soberanos, cliques governamentais e até sociedades inteiras comprometem dinheiro, território e vidas a seguir políticas contrárias a seus próprios interesses. Contrárias porque inviáveis ou porque a recompensa do sucesso será muito menor que os custos do esforço. Isso é a própria definição de Insensatez.

Tal é a conclusão deste que foi um dos últimos trabalhos da historiadora estadunidense Barbara Tuchman. Analisa politicas insensatas na prática, e para isso escolhe quatro situações históricas.
A primeira consiste na paradigmática: os troianos decidem levar o cavalo de madeira para dentro de suas muralhas, com o resultado já conhecido. Seus líderes não erraram por falta de aviso: muitas vozes aconselharam que se livrassem do falso presente. Por insensatez não o fizeram.

Esse modelo de comportamento se reproduziu nos Papas da Renascença, talvez a parte mais saborosa do livro. Seis Pontífices se sucederam: fazedores de guerras, envolvidos em assassinatos, pais de filhos bastardos (e assassinos), sedentos por dinheiro e cargos para sua família, perdulários. Não faltaram denúncias por uma igreja mais santa. Não foram escutadas. Veio Lutero. Uma Igreja dividida até hoje foi o resultado da insensatez.

O mesmo ocorreu quando as colônias inglesas na América do Norte demonstraram descontentamento com a política tributária da metrópole, no século XVIII. Alguns políticos ingleses advertiram que isso era um erro. O governo inglês insistiu, radicalizou, o descontentamento se tornou guerra e o resultado foi a independência das colônias nos Estados Unidos.

Quase metade do livro se refere à última situação analisada, a política estadunidense no Vietnã, o que é compreensível tendo em vista a época em que a obra foi escrita, no rescaldo da derrota dos EUA. A historiadora identifica o princípio no final da Segunda Guerra, quando após o falecimento de Roosevelt o governo modificou a política anterior, que era de favorecimento à independência do país. Informes já afirmavam que havia forte desejo de libertação no Vietnã, e que nem os antigos colonizadores franceses nem o novo poder dos EUA poderiam sobrepujar isso.

Não foram ouvidos. Os governos estadunidenses comprometeram cada vez mais dinheiro, armas e vidas. Inicialmente apoiaram o colonialismo francês na sua luta contra a guerrilha nacionalista, depois comunista. Após a derrota francesa, os EUA sustentaram a criação de um país cliente, o Vietnã do Sul. Corrupção e facciosismo tomaram este último. Os americanos entraram diretamente, primeiro com aviões, depois com tropas em terra, apesar de relatórios denunciando a futilidade de tudo. Finalmente tiveram de sair corridos de sua embaixada em 1975, horas antes de os tanques do Vietnã do Norte derrubarem seus portões.

A historiadora afirma que nem tudo foi insensatez no passado. Políticas bem planificadas e bem sucedidas foram implementadas. O espectro da insensatez no entanto permanece, como ameaça e advertência para as sociedades.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Divertindo-se até morrer, de Neil Postman

O Mundo não tão belo que a TV criou

Paulo Avelino

POSTMAN, Neil. Amusing ourselves to Death: public discourse in the age of show business. Estados Unidos: Penguin, 2005. 1a ed. 1985. Com nova introdução por Andrew Postman. 175p.

Uma música animadinha anuncia o começo. A dupla de apresentadores enche a tela. Belos, maquiados, paletó e terninho de executiva, eles anunciam as notícias do dia. E se seguem enchentes, gols da decisão do dia anterior, tranquilizadoras explicações de algum ministro. Raros assuntos duram mais que quarenta e cinco segundos. Depois de noticiar uma ameaça de seca, eles sorriem e dão boa noite. Corta para um comercial de margarina.

De tanto vermos cenas como esta, elas nos parecem naturais. Para o professor da Universidade de Nova Iorque Neil Postman, nada disso o é. Ele escreveu esse pequeno ensaio em 1984-1985, quando a grande ameaça era uma guerra nuclear entre Estados Unidos e União Soviética, e a pletora de computadores pessoais ligados à Internet estava longe de existir.

O autor parte da afirmação que o meio molda a mensagem: não se pode dizer qualquer coisa em qualquer meio de comunicação. Ele analisa a televisão enquanto epistemologia.

Para tanto ele faz um confronto entre dois meios de comunicação: a televisão e aquele que a precedeu, a palavra impressa. Cada um desses meios criou um modo de pensar e um modo de viver diferente.

A palavra impressa convida à exposição lógica, ao detalhamento, à não-contradição. Todos esses elementos podem falhar em um texto impresso, e tais falhas podem ser percebidas pelo leitor. Acima de tudo, a palavra impressa tem um conteúdo, que pode ser verdadeiro ou falso, relevante ou não. Pode parecer óbvio, mas o meio seguinte se caracteriza exatamente pelo conteúdo ser nele marginal ou irrelevante. A palavra impressa possibilitou gerações de pregadores, políticos e advogados com uma tendência para o discurso lógico e ordenado.

No século XX veio a TV. E a essência do discurso televisivo é o entretenimento. Uma dupla de apresentadores nos apresenta pedaços de discurso sobre fatos desconectados, resume-os em um rótulo “notícias do dia”, muitas delas tragédias, e se despede pedindo para assistirmos de novo amanhã. Vários desses assuntos dariam material para noites sem dormir. Mas a televisão transforma tudo em entretenimento.

Não é que o discurso impresso fosse sempre sério. Pelo contrário, o autor afirma que a imprensa produziu toneladas de bobagem. E não é que a TV não possa se dedicar a assuntos chamados sérios. Apenas é que, pelas próprias características da TV, ela só desenvolve esses assuntos como diversão.
O problema é querer usar a TV para esferas aos quais ela não se adequa, como a política, a religião e a educação. O autor afirma que o problema não são os programas de entretenimento: TV é para isso mesmo.


Portman no seu livro não conheceu a Internet. Muitas de suas afirmações podem no entanto ser aplicadas, até de forma amplificada, à nova mídia. Para o leitor brasileiro, vale salientar que o livro se refere quase que exclusivamente aos Estados Unidos. O livro no entanto merece a leitura. Para percebermos que o sorridente e belo casal de apresentadores não é tão natural, nem tão inocente assim.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

O Fogo e a Fúria, de Michael Wolff

WOLFF, Michael. The Fire and the Fury: inside the Trump White House. Edição Kindle, 2018. 321p.

Paulo Avelino

O fogo e fúria da Casa Branca caíram sobre este livro logo nos primeiros dias de 2018. Temendo que problemas legais pudessem impedir seu lançamento, a editora estadunidense antecipou-o para o dia 5 de janeiro, uma sexta-feira. Logo nas primeiras 48 horas o livro alcançou o topo.

Michael Wolff entrou o ano como virtualmente desconhecido. Terminou a sua primeira semana como celebridade mundial. Pelo que se vê na imprensa dos EUA, o jornalista nova-iorquino era mais conhecido como jornalista ligado à mídia e a celebridades, com um modo muito pessoal de escrever e ligado aos meios liberais, algo como um Truman Capote meio século depois e sem o mesmo charme.
Isso se reflete em seu livro. Segundo o próprio autor, o Fogo e a Fúria veio da possibilidade que a própria Administração Trump deu a ele – a de estar presente de forma costumeira na Casa Branca, a falar com uns e outros, registrando ou não as conversas, sem se tratar de entrevistas formais.

Trata-se portanto de livro de testemunhos e opiniões, de pessoas que lidam com Trump, sobre Trump e sobre si mesmos. Estilisticamente a obra segue os preceitos básicos do non-fiction estadunidense: a narração meio romanesca, a ênfase no suspense, a personalização dos fatos, no sentido de evitar grandes explicações econômicas e políticas. O resultado impacta.

O Fogo e a Fúria pode ser dividido em duas grandes partes. Na primeira Michael Wolff faz suas grandes revelações sobre Trump e sua equipe, razão pela qual as manchetes dos jornais sobre o livro se referiram basicamente a esta parte. O Presidente não queria ser eleito. Não gosta de ler. Não consegue concentrar-se por muito tempo em um assunto. Tem medo de morrer envenenado. E para um homem tão rico, tem preferências culinárias bem simplórias – gosta de cheeseburgers de fast-food.

A segunda parte desenvolve a primeira de uma forma cronológica nos primeiros meses da nova administração, a mostrar como a equipe e o presidente lidaram com cada crise – e elas foram muitas. Esta parte é mais árida, e exige mais conhecimento da política estadunidense.

A equipe de Trump tem criticado a obra. Tendo em vista o formato de livro de testemunhos quase sempre informais, não é de surpreender se parte dele se relevar impreciso. Ainda assim o Fogo e a Fúria assusta. De como pessoas tão medíocres, sem um plano definido, sem nenhuma grandeza política ou pessoal, sem nem mesmo muita cultura pudessem reunir tanto poder. A obra abala uma das crenças mais definidas que nós, que não temos poder, possuímos: a de que as pessoas que têm Poder o têm por alguma espécie de mérito. Muitos da equipe da Casa Branca lá estão apenas porque circulavam nos lugares certos com as pessoas certas, e mesmo essas pessoas certas só se tornaram assim porque por acaso venceram uma eleição que a maioria dava por perdida. Inclusive eles mesmos.

O Fogo e a Fúria tem suas limitações. Mas choca e revela – que é o que se propunha a fazer.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

A Última Viagem do Lusitânia, de Erik Larson

Histórias em uma Tragédia

LARSON, Erik. A Última Viagem do Lusitânia. Lisboa: Bertrand editora, 2015. 463p. Tradução de Raquel Dutra Lopes.

Paulo Avelino

O Lusitânia zarpou do porto de Nova Iorque no dia primeiro de Maio de 1915. Destinava-se à Inglaterra. Nunca chegou lá. Um navio, um submarino, uma série de acasos. E de quebra, milhares de vidas. Esta é a história que o escritor estadunidense especializado em não-ficção Erik Larson nos contra neste livro best-seller.

Em uma era de grandes navios o Lusitânia conseguia ser maior que quase todos, quase do mesmo tamanho que o Titanic, que afundara três anos antes. Não era uma boa época para navegar. A Primeira Guerra Mundial começara dez meses antes e se radicalizava – a Grã-Bretanha e o Império Alemão bloqueavam-se um ao outro pelo mar, procurando impedir o comércio. Por sua desvantagem em navios de superfície, o Comando Alemão apelava para uma arma nova – o Submarino.

Nova e mortal – os submarinos na época eram tão desajeitados que, quando um torpedo era disparado, o navio ficava subitamente leve em uma das pontas e os marinheiros precisavam correr para lá para fazer peso. E eram tão pequenos que só levavam sete torpedos. Apesar disso um só submarino era suficiente para afundar navios e mais navios em uma só rota. Dificilmente se podia saber onde estavam.

No dia 30 de abril uma outra embarcação partia, dessa vez de um porto militar alemão. O submarino U-20 tinha uma missão simples: afundar o que achar que devesse ser afundado em volta da costa da Grã-Bretanha. Comandava-o o capitão-tenente Walther Schwieger, de 32 anos, e uma pessoa doce, que “não mataria uma mosca”.

Os comandantes de submarino tinham muito mais poder que sua pouca idade lhes dava. As comunicações com o Comando Geral eram intermitentes. Quando próximos do inimigo submergiam e a partir daí todo conhecimento vinha de um periscópio, com uma visão estreita, que quase só o comandante usava, e que nem podia ser usado por muito tempo – deixava um rastro facilmente detectável. O resultado era que um jovem isolado no mar podia tomar a decisão de afundar ou não um navio cheio de civis, incluindo mulheres e crianças.

O livro conta a história do navio, do submarino que o acertou e também de pessoas em volta do drama, como a de certo senhor que pouco antes comparecera a um culto protestante e pedira às pessoas que o deixassem a sós. A sós com o caixão da esposa. Eles dificilmente poderiam lhe negar algo – era o presidente dos Estados Unidos, Thomas Woodrow Wilson. Meses depois sua prima o apresentou a uma amiga, uma viúva de 42 anos, Edith Galt. Foi uma paixão de cavalheiro por dama, de cartas contidas e passeios por jardins. Casar-se-iam depois.

A Última Viagem do Lusitânia vai no rastro da tendência da não ficção de ocupar um lugar anteriormente dos romances – a suspense, a emoção, os enredos envolventes, está tudo lá. Nele não se espere uma análise historiográfica, mas uma série de histórias bem contadas, entrelaçadas por um acontecimento. Emociona e convida a virar suas páginas – o que, suponho, era seu objetivo.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

A Guerra que Portugal quis esquecer, de Manuel Carvalho

Uma Surreal Guerra

CARVALHO, Manuel. A Guerra que Portugal quis esquecer: o desastre do exército português em Moçambique na Primeira Guerra Mundial. Porto: Porto Editora, 2015. 269p.

Paulo Avelino


Os europeus desenharam fronteiras em mapas, desentenderam-se e fizeram guerras. Mataram-se e mataram aos locais. Deixaram cemitérios que hoje a floresta engole. Esta é a síntese.

Portugueses e alemães guerrearam entre 1914 e 1918 nos territórios dos atuais Moçambique e Tanzânia - uma frente da Primeira Guerra Mundial. Envolveram-se também britânicos, belgas e colonizadores sul-africanos – além dos africanos, que pagaram o maior preço. Hoje poucos o sabem – mesmo nos países envolvidos. O jornalista português Manuel Carvalho conta a história de um conflito olvidado.

Os portugueses dominavam parte da costa oriental da África desde o século XVI (Moçambique). Os alemães poucas décadas antes tomaram uma parte ao norte (a atual Tanzânia). Os Britânicos assenhorearam-se da região mais ao norte ainda (o atual Quênia). Quando as potências entrarem em guerra em julho de 1914, essas colônias também se arrastaram ao conflito.

A grande Mídia só uma vez catapultou essa guerra ao primeiro plano – no filme Entre Dois Amores (Out of Africa) na qual o charmosíssimo casal Meryl Streep e Robert Redford vive história de paixão entre matas e guerra.

O livro relata a participação lusitana na guerra. Uma pesquisa bem executada leva o leitor a lugares como o rio Rovuma, Mocimboa da Praia, Porto Amélia, Pemba, Palma, Mtwara, cabo Delgado – lugares em que mais de uma centena de milhares de pessoas viveram e mataram e morreram.

O recente governo republicano de Lisboa comprometeu-se firmemente com a guerra, embora nem tanto com os meios para sua realização. Sucessivas expedições com tropas padeceram de falhas básicas de logística, materiais, treinamento, remédios, até água potável no local. Tão terrível quanto os alemães, a malária e as anemias mataram bem mais. Muitas tropas eram compostas em grande parte de marginais, e nenhuma teve treino adequado para o combate em terreno africano.

Juntam-se a grandiosidade e a podridão de todo colonialismo – conhecemos gente como o capitão Teixeira Pinto, que antes já submetera os guineenses à submissão. Os alemães o vararam de balas em uma trincheira na batalha de Negomano. Ou como Paul Emil von Lettow-Vorbeck, o comandante alemão que se convenceu de que resistir era possível, mesmo cercado e sem receber suprimentos da Europa. E foi possível – para azar das pessoas que moravam nas regiões onde ele fez a guerra. Também figuram fatos como a Campanha do Barué – uma guerra de terra arrasada contra uma tribo supostamente rebelada, que resultou nos saques, escravidão e milhares de mortos típicos do processo colonizador.


Trata-se de livro com visão mais jornalística que historiográfica. Privilegia mais a descrição documentada dos fatos que a análise profunda de suas causas e de seu contexto, embora esta não esteja ausente. Vale pelo conhecimento de uma realidade sanguinária e surreal – europeus a lutarem por uma terra distante por uma guerra mais ainda.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Uma História do Samba: as origens, de Lira Neto

Uma história da Impureza

LIRA NETO. Uma História do samba: volume 1, as Origens. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. 342p.

Paulo Avelino

Era uma vez um gênero musical que nasceu de um só lugar, uma só raça, e uma só classe social, as três desfavorecidas pelo sistema dominante. Cresceu puro, absolutamente livre de quaisquer influências externas. Era odiado pelos setores dominantes da sociedade, que só se lembravam dele para destruí-lo. Representava a revolta dos oprimidos contra a sanha dos opressores. Impôs-se por sua qualidade. E então os dominantes quiseram cooptá-lo, enchendo-o de elementos estranhos que ameaçavam sua pureza inicial.

Não sei qual é o ritmo musical cuja história contei no parágrafo acima. A história do samba é que não é.

O veterano biógrafo Lira Neto arriscou-se neste novo projeto a sair de seu caminho conhecido para escrever uma história de um modo de fazer música. O samba identifica-se com o Brasil, e logo no início o livro deixa claro que tal identificação longe está de ser inocente.

Aliás trata-se de história sem inocentes. A pesquisa do autor mostra que desde o início os principais sambistas procuraram a proteção e a concordância do setor mais rico da sociedade. Uma cena sintetiza isso. Pinheiro Machado representava a elite no seu máximo: próspero, poderoso, fazedor de presidentes. João da Baiana era um dos primeiros sambistas. Pinheiro protegia e deu um pandeiro de presente, com dedicatória, a João da Baiana. O Samba e o Poder juntos.

Esse dueto político-musical tornou-se explícito no Estado Novo – mais tarde, porém descrito na cena inicial do livro. O talentoso e chapa-branca maestro Villa-Lobos procurou sambistas para resgatar velhas tradições perdidas do nosso povo. Resgatar e reformar, diz o livro. O compositor erudito dirigia um projeto de busca e construção de uma verdadeira identidade nacional, sem influências externas. Nesse projeto entrou o samba.

Os Oito Batutas excursionaram pela França logo no início do gênero. Eram realmente batutas da música – Pixinguinha era um deles. Foram um dos primeiros conjuntos de samba. Fizeram algum sucesso, mas, mais que isso, descobriram o jazz. O gênero estadunidense mudou suas roupas, seus instrumentos, até sua postura. O jazz fez Pixinguinha tocar o saxofone que se tornaria sua marca. Nem pureza social, nem pureza musical. O samba já nasceu mistura.

Lira Neto escreve biografias. Isso se transpõe direto para esse primeiro livro fora do gênero. O forte são as vidas dos protagonistas, mais que o condicionamento social ou evolução musicológica, embora essas compareçam em pequena escala. Esse volume dos primórdios pode ter o mérito de levar ao público não especializado uma série de nomes importantes porém hoje pouco falados ou esquecidos, como Hilário Jovino, Sinhô, e Donga, além de outros que são lugar-comum para as pessoas que saem um pouco da mídia hegemônica, como Francisco Alves, Cartola e Noel Rosa.

Uma História do Samba (vol. 1) entretém. Traz informações curiosas. E embora não seja seu propósito, mostra que, no samba, a beleza musical obviamente existe. A pureza, nunca.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Kennedy e Salazar, de José Freire Antunes

O Colonialismo entre fogos

ANTUNES, José Freire. Kennedy e Salazar: o Leão e a Raposa. Alfragide, Portugal: Edições Dom Quixote, 2013. 452p.

Os demônios [se estes existissem] pareceram ter aberto suas comportas ao mesmo tempo sobre os mesmos homens. Políticos sem voto livre, sem carisma e com muito poder enfeixavam nas mãos um dos países mais antigos da Europa e o maior Império Colonial ainda existente: Marcello Caetano, Marcelo Mathias, Adriano Moreira, Franco Nogueira, Kaulza de Arriaga e acima de tudo aquele de quem os outros eram pouco mais que marionetes, Antônio de Oliveira Salazar. Eles dominavam havia três décadas e sem muitos problemas. Agora os teriam, e muitos.

O professor de relações internacionais português radicado nos EUA José Freire Antunes realizou ambicioso panorama das relações entre EUA e Portugal desde a Segunda Guerra. De todo o período, o mais interessante se condensa em apenas um ano, 1961, o ano terrível do salazarismo.

O mais importante fator a dar errado se deu em Washington: um milionário filho de milionários, bem-parecido e com a esposa mais bela ainda, foi eleito para a Casa Branca. John Fitzgerald Kennedy vinha com jovens assessores e ideias novas. Uma delas dizia respeito à África: os EUA apoiariam decididamente a independência das antigas colônias, e nessa decisão o idealismo entrava a braços com o interesse de manter os comunistas de Khruschev à distância.

Havia uma pedra no caminho dessa política: Salazar. O ditador não queria nem começar a cogitar 
independência para Moçambique, Guiné e Angola.

Portugal precisava dos EUA, por razões óbvias. Mas os EUA também precisavam de Portugal. A Base das Lajes, nos Açores, era essencial para o jogo de Guerra Fria estadunidense contra a União Soviética.

O livro consiste nesse xadrez, com os EUA a tentar empurrar seu aliado a de alguma forma mudar sua política, porém sem enfurecer Salazar de forma a este expulsar os estadunidenses de sua preciosa base. De sua parte Salazar procurava convencer Kennedy de que Portugal era o bastião dos próprios interesses dos EUA contra o comunismo internacional. Com enormes fatores complicadores, como o começo da guerra civil em Angola e a invasão de Goa pela Índia. Nomes que depois se tornariam importantes da política africana como Holden Roberto, Jonas Savimbi e Agostinho Neto aparecem, ainda no começo de suas trajetórias.

O autor se baseia nos arquivos estadunidenses da CIA e do Departamento de Estado. Quando cita fontes portuguesas, quase sempre se trata de entrevistas com velhos hierarcas do regime. Pouco utilizou de fontes africanas. Há momentos divertidos, como as farpas lançadas pelo elegante embaixador estadunidense na Índia, John Kenneth Galbraith, contra o embaixador em Portugal, Charles Burke Elbrick, este famoso no Brasil por sido posteriormente vítima de sequestro político. O livro toma no entanto uma trilha mais ditada pelos interesses dos EUA.

Trata-se de ensaio de interesse para quem quer saber mais sobre o salazarismo, e sobre a Administração do quase lendário presidente estadunidense.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

A Base Física do Espírito, de Farias Brito

Enfim, um filósofo brasileiro

Paulo Avelino

FARIAS BRITO, Raymundo de. A Base Física do Espírito. Brasília: Senado Federal, 2006. 334p. (Edições do Senado Federal, volume 53.)

Raymundo de Farias Brito morreu a 16 de Janeiro de 1917 e esse centenário nos leva a revisitar a obra do primeiro e talvez único brasileiro que se propôs a uma obra filosófica original.

Farias Brito nasceu em 1862 na pequena São Benedito, no Ceará. Estudou Direito na Escola do Recife, tomada por estudantes positivistas e materialistas - as correntes europeias que modulavam o pensamento da época. Formado, voltou para o Ceará, onde foi promotor público e professor. Em 1902 migrou para a próspera Belém da época da borracha, na qual ensinou e viveu sete anos. Finalmente transferiu-se para o Rio, onde assumiu a cadeira de lógica do Colégio Pedro II depois do assassinato do titular Euclides da Cunha. Viveu na então capital federal até sua morte.

A par dessa atividade pedagógica e burocrática, Farias Brito lia. E lia massivamente. Até mesmo os adversários no pensamento reconheciam que Farias Brito lera quase tudo o que se escrevera sobre filosofia nos três séculos anteriores.

Dessa massa de conhecimento coerentizada por um propósito central nasceu sua obra. E o propósito era moral. Para Farias, o objetivo da Filosofia é orientar como de viver a vida: se não sei o que sou, nem para que vim ao mundo, não posso saber uma norma de conduta.

Em busca por esta lei moral Farias escreveu muitas obras. Publicou A Filosofia como Atividade Permanente do Espírito com 32 anos de idade, e não parou mais. Seguiram-se entre outras a Filosofia Moderna (1899), A Verdade como Regra das Ações (1905) e O Mundo Interior (1914).

Publicou A Base Física do Espírito em 1912, um amplo tratado sobre a evolução dos estudos psicológicos nos séculos anteriores. Farias dava não pouca importância à Psicologia. Para ele a Filosofia era paixão do conhecimento, e sua obra era uma tentativa de resolver os problemas da Filosofia através da Psicologia Transcendente, ou seja, a que fica em uma esfera superior à experiência e que não pode ser atingida pela experiência.

Segundo Farias, a crise do pensamento filosófico surgira desde as obras de René Descartes e Francis Bacon. Estas iniciaram as primeiras dúvidas sobre as condições do conhecimento humano – e sobre sua possibilidade. Antes, acreditava-se que o homem podia saber perfeitamente as coisas fora de si. A filosofia depois deles questionou isso, o que culminou na obra cética de David Hume, para o qual os fenômenos do espírito são simplesmente impressões de nossa sensibilidade e não se ligam a qualquer substrato permanente, bem dentro nem fora de nós.

Essa crítica dissolvente, para Farias, originou o criticismo kantiano e o positivismo, noções nas quais ele reconhece méritos, porém que no todo considera responsáveis pela confusão do mundo contemporâneo.


Raimundo de Farias Brito mostrou que é possível fazer uma obra universal, aqui no Brasil, em Fortaleza ou Belém, mesmo antes da Internet e das livrarias online. Pois o cérebro humano transcende fronteiras.

sábado, 2 de julho de 2016

A Noite mais longa, de Miguel Pinheiro

Sobre uma Festa e um Drama

PINHEIRO, Miguel. A Noite mais longa.  Lisboa : Esfera dos Livros, 2014. 294p.

Na noite de 06 de setembro de 1968 Portugal vivia há quarenta anos sob o mesmo governante António de Oliveira Salazar – quase todos sob ditadura. Também mergulhara havia já sete em uma guerra colonial em três pontos diferentes do planeta, Angola, Moçambique e Guiné. Ninguém sabia quantos torturados, perseguidos, mortos. Nesta noite aconteceram uma festa e um drama. De um lado em um palácio nas proximidades de Lisboa o multibilionário Antenor Patiño decidiu torrar dinheiro em uma festa. Perto dali, muito poucos na ditadura sabiam que Salazar estava às portas da morte – e passava por cirurgia de emergência.

O jornalista especializado em temas políticos Miguel Pinheiro percebeu a dramaticidade dos dois acontecimentos, ambos com longos antecedentes. O drama do ditador (ou da ditadura) começara da maneira mais tola, pouco mais de um mês antes, quanto caiu de uma cadeira ao se sentar para ser tratado por um calista - e bateu a cabeça ao chão. Incidente já importante para qualquer homem de 79 anos, agravou-se porque Salazar não permitiu exames, e dizia que estava bem. Até que as dificuldades de escrever e andar se tornaram evidentes. A cúpula do regime decidiu por uma cirurgia – quase tarde demais.

Antenor Patiño também tivera suas preocupações, mas nenhuma delas envolvia dinheiro. Aliás, este senhor nunca soubera o significado da falta do mesmo. Era filho de Simon Patiño, o Rei do Estanho, o homem mais rico da Bolívia e um dos mais do mundo. A Casa de Antenor possuía sala de boliche, cinema, discoteca, biblioteca, casa pequena para crianças, quadra de tênis, estufa de plantas, dois lagos, piscina, campo de golfe, pomar, 5000 metros quadrados e 150 empregados para cuidar de tudo. Para mostrá-la ao mundo quis fazer uma festa de arromba, com a presença de algumas das maiores celebridades da época, de Audrey Hepburn a Henry Ford II, de Gina Lollobrigida à Princesa Ira de Fürstenberg.

O livro acompanha hora a hora o drama do regime em contraste com a festa do milionário que nada tinha contra ele. E um mito se desfaz logo: o de que ditaduras são organizadas. A desordem do Estado salazarista queda patente no desentendimento de secretários e ministros, temerosos de tomar uma decisão, e nas discussões dos médicos, todos chamados de última hora. Após passar por três hospitais, tudo sem o país saber de nada, Salazar finalmente entrou na sala de cirurgia às quatro horas da manhã do dia 7, enquanto a doce Audrey Hepburn encantava os jornalistas e todo o resto do mundo com seu sorriso e seu caríssimo modelito exclusivo Givenchy.

A ditadura portuguesa não acabou naquele dia. Salazar sobreviveu, mas sem condições de assumir o poder. E morreu dois anos depois. O livro de Miguel Pinheiro não faz uma análise do salazarismo nem das causas de sua derrocada. Descreve de maneira quase divertida o apodrecimento da ditadura, o qual teria seu desfecho a 25 de abril de 1974, e que teve como um de seus pontos simbólicos uma festa e um drama, ocorridos na mesma noite.